quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Eu sou o sol

Ele controlava meus caminhos, ele ditava meus passos, pé ante pé era vigiada pelos olhos mais argutos. Respirava o ar que me era destinado, rarefeito, sujo, cheio do hálito fétido do esgoto de vida que levava. Estava no limbo, vegetava, mas o amava. Amava ou havia desenvolvido Estocolmo? Não sei. Minha vida era uma página escrita por mãos alheias, meus desejos eram do alheio antes de serem meus. Memórias eram quadros envelhecidos numa parede cheia de teias e bolor. E eu... ah eu era distante de mim, e sabia disso. Era (pretérito imperfeito)...
Hoje? Hoje sou presente! Libertei-me do cárcere que me prendia. Ele, porém, ainda irradia, contraditoriamente mexe com meus sentidos mais profundos e profanos, mas não é mais o verão que me aquece nos dias de frio, nem molha mais meus lençóis, nem cuida minuciosamente de minha vida. Ele continua brilhar como vagalume pronto pra recolher sua presa no cupinzeiro. E eu... Ah, eu hoje sou o sol.

Júlia Siqueira

Cicatriz

"[...] nunca conheci uma única pessoa que não traga no coração uma dor em carne viva, um pranto que ainda escoa em silêncio ou uma cicatriz para sempre falante. O que varia é a maneira que cada um de nós escolhe para lidar com isso a cada instante que o tempo desembrulha. Um jeito é, ainda assim, investir na vida; outro, é investir na morte. Um jeito é, por causa de tudo, alimentar mais o medo; outro, é apesar de tudo, alimentar mais o amor. Nenhum deles é fácil, mas a textura de cada caminho é diferente".

Ana Jácomo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Tantos aviões ainda caem...

Todas as vezes que nos deparamos com uma situação como a da tragédia com os jogadores do Chapecoense, vemos quanto as nossas vidas são efêmeras, fluídas e estão longe do nosso alcance. Mas saindo do clichê de consternação e tristeza coletiva, na qual mergulhamos nos últimos dias, fico me perguntando sobre quantos aviões caem em forma de filas imensas em hospitais sucateados Brasil afora? Quantas crianças abandonadas nas ruas são enxotadas de calçadas de grandes prédios por pessoas que querem criminalizar o aborto? Penso, ainda, nos aviões que caem a cada tiro de bala perdida recebida por um pai de família que saía para trabalhar para, assim, trazer o sustento de seu lar. 
Mas tais coisas se tornaram tão corriqueiras que passam a ser banais, de modo, que apenas em momentos terrivelmente trágicos aquela centelha de humanidade que ainda nos resta consiga colocar-se pra fora. Sonho, todos os dias, com uma vida mais humana para todos nós, um momento que o nosso afeto seja diário e não apenas pontual.