sábado, 27 de fevereiro de 2016

Esperas...

Eu fico por vezes querendo adivinhar seus silêncios, mas é tudo tão incerto que só ouço o cricrilar dos grilos. O que pensa? O que quer? O que sente? (Pausa). Não devo falar, perguntar talvez? Não. Há dor, há saudade, há tristeza... Eu sei... Quanto a mim, tenho vontade de arrancar tudo isso de ti e sofrer sozinho suas incertezas, suas mágoas, sua dor, mas não posso, tenho as minhas próprias dores, dores de alma, dores de distâncias, ausências de você. Então me calo, espero. As esperas são as certezas dos que amam. Eu espero que tudo se acalme.

Me espera? Chego já!

Viajar é mudar a roupa da alma.

Lembro-me de minha primeira viagem. Mãos suando, coração a mil, ansiedade a flor da pele. Eram poucos quilômetros, mas isso não importava, era a oportunidade de ver as coisas sobre outro prisma. Os anos passaram, a quilometragem mudou, agora lugares mais distantes e culturas e hábitos cada vez mais diferentes, meu coração, entretanto, ainda acelera, o nervosismo ainda acontece de maneira igual. Viajar é dar umas férias a alma, é uma oportunidade de sair do rotineiro e dar asas ao viver.  Sinto a cada dia que a minha alma é do mundo e meu coração não tem país.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O que nos falta...

Não é amor o que nos falta, não. Toda gente tem amor, esse sol que é sempre sol, é da natureza dele ser assim. O que varia, como variam os instantes, é a quantidade de camadas de nuvens de confusão, de ignorância, de raiva, de medo, que o encobrem. Tem vez até que acinzentam o céu todinho pra depois fazer a vida chover torrenciais embaraços. Tudo bem, chuva sempre passa, tempestade que seja.
Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes, nos falta é soltura. É expressão. É desarme. É poder dançar com a vida sem passo marcado. É parar de dar trela pra bobagem. É desacreditar que somos especialistas em afeto. É parar de julgar. É parar de encher barriga de dor. É mudar a faixa do CD que canta o passado com drama.É escolher deixar de chorar pelo sofrimento vivido em 1815. É levar luz pra conversar com a sombra e deixar que as duas se entendam e se tornem amigas. É a ousadia de descolar o umbigo de qualquer orgulho, arrogância e redondezas.
Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes nos falta, é perceber que os relacionamentos são mais vivos tanto o quanto são imperfeitos porque perfeição, no contexto humano, é quimera. O amor é perfeito, mas nós, seus recipientes, ainda não. Dizemos tolices, fazemos tolices, quando queremos apenas dizer a nossa admiração ou gratidão ou encanto ou tudo junto. Todos nós falhamos no amor, e às vezes falhamos muito, mas o que continua a nos mover, mesmo quando nos atrapalhamos, eu acho, é o destino de acertar cada vez mais um pouquinho. De soprar mais um pouquinho as nuvens. De deixar o nosso sol dizer mais um pouquinho o seu tamanho todo.
Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes, nos falta, é a capacidade de perdoarmos a nós mesmos e aos outros. Perdoar com a consciência da terna compaixão, da generosidade, da empatia, porque muitos de nós vivemos boa parte da vida como sóis culpados, como sóis assustados, mas todo sol, por trás de toda culpa, de todo susto, de qualquer enganosa aparência, quer apenas sorrir o seu lume.
Às vezes, apenas ainda não sabe como. Saberá. É da natureza do amor. O que nos falta não é aprender o amor. O que nos falta, sobretudo, é desaprender o medo. Nisso também, não importam os enredos, estamos todos juntos.

Ana Jácomo