quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Eu sou o sol

Ele controlava meus caminhos, ele ditava meus passos, pé ante pé era vigiada pelos olhos mais argutos. Respirava o ar que me era destinado, rarefeito, sujo, cheio do hálito fétido do esgoto de vida que levava. Estava no limbo, vegetava, mas o amava. Amava ou havia desenvolvido Estocolmo? Não sei. Minha vida era uma página escrita por mãos alheias, meus desejos eram do alheio antes de serem meus. Memórias eram quadros envelhecidos numa parede cheia de teias e bolor. E eu... ah eu era distante de mim, e sabia disso. Era (pretérito imperfeito)...
Hoje? Hoje sou presente! Libertei-me do cárcere que me prendia. Ele, porém, ainda irradia, contraditoriamente mexe com meus sentidos mais profundos e profanos, mas não é mais o verão que me aquece nos dias de frio, nem molha mais meus lençóis, nem cuida minuciosamente de minha vida. Ele continua brilhar como vagalume pronto pra recolher sua presa no cupinzeiro. E eu... Ah, eu hoje sou o sol.

Júlia Siqueira

Cicatriz

"[...] nunca conheci uma única pessoa que não traga no coração uma dor em carne viva, um pranto que ainda escoa em silêncio ou uma cicatriz para sempre falante. O que varia é a maneira que cada um de nós escolhe para lidar com isso a cada instante que o tempo desembrulha. Um jeito é, ainda assim, investir na vida; outro, é investir na morte. Um jeito é, por causa de tudo, alimentar mais o medo; outro, é apesar de tudo, alimentar mais o amor. Nenhum deles é fácil, mas a textura de cada caminho é diferente".

Ana Jácomo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Tantos aviões ainda caem...

Todas as vezes que nos deparamos com uma situação como a da tragédia com os jogadores do Chapecoense, vemos quanto as nossas vidas são efêmeras, fluídas e estão longe do nosso alcance. Mas saindo do clichê de consternação e tristeza coletiva, na qual mergulhamos nos últimos dias, fico me perguntando sobre quantos aviões caem em forma de filas imensas em hospitais sucateados Brasil afora? Quantas crianças abandonadas nas ruas são enxotadas de calçadas de grandes prédios por pessoas que querem criminalizar o aborto? Penso, ainda, nos aviões que caem a cada tiro de bala perdida recebida por um pai de família que saía para trabalhar para, assim, trazer o sustento de seu lar. 
Mas tais coisas se tornaram tão corriqueiras que passam a ser banais, de modo, que apenas em momentos terrivelmente trágicos aquela centelha de humanidade que ainda nos resta consiga colocar-se pra fora. Sonho, todos os dias, com uma vida mais humana para todos nós, um momento que o nosso afeto seja diário e não apenas pontual.  

domingo, 20 de novembro de 2016

O ano que ainda não acabou...

Em janeiro tínhamos o desejo de que as coisas melhorassem e que não ficássemos presos numa continuação tão ruim quanto o ano anterior, alimentando hora após hora, minuto a minuto, essa certeza em nossos corações. Mas não foi assim. Tivemos a forte certeza, com o passar dos meses, de que o que já era péssimo, conseguiria uma forma ficar pior. Racismo, intolerância religiosa, violência, bipolarização política, desigualdades, mortes, doenças, choro de mães que viram seus filhos morrerem em sua frente, corações dilacerados por ter que procurar refúgio em países que não os aceitam. O mundo mostrou sua pior face, como se estivesse cansado de exaustivamente maquiar o seu verdadeiro eu.
Talvez eu esteja sendo muito pessimista. Sim, de fato, aconteceram coisas boas e tivemos bons momentos. Mas os tivemos apenas como paliativo de nossas próprias misérias. As coisas poderiam ter sido melhores, acredito, se as nossas esperanças não ficassem apenas atreladas as nossas esperas. Esperar que o outro não mate, que o outro não maltrate, que o outro mude. Esperamos muito dos outros neste ano que se finda e não fizemos nada para que a esperança brotasse em nossas ações. Ficamos sentados vendo o mundo passar, preocupados demais com os nossos egos inflados entre selfies e textões de rede social, ambas vazias em si mesmas.
Daqui a algumas semanas, quando um novo número se colocar diante de nós no calendário e um novo ciclo se iniciar, começaremos a nova trajetória de esperas. Espero que nós consigamos ser essa mudança que tanto clamamos, que tanto almejamos e precisamos, para que finalmente se finde este ano que ainda não acabou. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

E eu que nunca achei que iria realmente casar...

Sim, eu realmente pensei que nunca chegaria esse dia. Acreditei, por vezes, que isso já não fosse mais possível, mesmo com vinte e poucos anos. Mas aí você que me lê talvez pergunte: nenhum dia de sua vida chegou ao menos fantasiar essa possibilidade? Nunca pensou realmente em seu próprio casamento? Ah, isso sim! Flores do campo colocadas com esmero em todo o ambiente que seria, é claro, um grande hotel fazenda que pagaria até o resto de minhas vidas terrestres, todos os convidados devidamente vestidos de branco (não é um casamento candomblecista, mas poderia até ser, pois não acho que Deus seja católico, apostólico e romano, Ele não seria tão chato de ser exclusivista assim), violinos tocariam a marcha nupcial - uma música brega de Diana (diva dos anos 1970) – meus pais se debulhando em lágrimas (de alegria obviamente, pois eu consegui o feito de alguém finalmente me aceitar e me querer! MÃE, FIZ MEU NOME!), meus amigos felizes e preocupados, afinal nossos próximos passos serão batizados, festas de aniversário infantis, brigas judiciais e velórios chatos de familiares desconhecidos, tudo no melhor estilo “vida normal” de ser. E no meio de toda essa confusão, chego eu, nervosa, ansiosa e com medo do padre idoso que minha tia escolheu para a celebração tenha um ataque cardíaco e morra antes de celebrar meu casamento, no melhor estilo comédia romântica hollywoodiana.
Mas, “hello”, estamos no mundo real e eu definitivamente não sou a Jennifer Aniston. Não é assim que as coisas acontecem no concreto. Eu me vi casada de uma forma distinta e nada semelhante a essa. Algumas roupas começaram a ficar em casa, e não eram minhas, pois nem torturada usaria uma cueca verde-militar. Os finais de semana começaram a ser em casa e vi que a Netflix tem um catálogo infinito de filmes e séries. Aquela toalha a mais no banheiro e aquele par de havaianas encostada ao lado da minha planta favorita na entrada da sala começaram a fazer parte da decoração da casa. E algumas contas apareceram misteriosamente pagas antes do final do mês e começou a ter café de gente em casa e não apenas aquele horrendo que dissolvo na água enquanto tento me arrumar, escovar os dentes e não chegar novamente atrasada no serviço. Ufa!
Casar é isso, não é um conto de fadas idiota da Disney e sim uma pontinha da realidade dizendo que podemos ser maravilhosos sozinhos, e somos, (eu sou fantástica sozinha, mesmo, sem modéstia), mas que a felicidade pode ser ainda maior quando temos alguém com quem aumentá-la. Casei? Acho que sim, digo todos os dias a mim mesma, quando procuro o controle para baixar o volume da tevê e vejo que qualquer história de princesa é merdinha perto das loucuras incríveis do mundo real.


Júlia Siqueira

domingo, 2 de outubro de 2016

Curto ensaio sobre a vida...

Somos sementes. Caídas no chão, brotamos, buscamos aprofundar nossas raízes para depois fortalecer as nossas estruturas. Mudamos como as estações mudam. Somos invernos, somos verões, podemos sorrir na primavera e sermos austeras no outono. Parimos sementes que o vento insiste em carregar para longe de nós. Damos sombras para piqueniques, oferecemos nossa casca para apaixonados escreverem seus nomes entrelaçados e emprestamos nossos galhos para acolher pessoas e animais brincarem. Envelhecemos. Trocamos as nossas cascas, agora nosso caule aparenta ser mais grosso que outrora, tamanhas as cicatrizes colecionadas com o passar dos anos. Daqui  um tempo morrerei, alimentarei animais com o meu tronco apodrecido, mas continuarei vivendo na vida das sementes eu pari, como coadjuvante das fotos onde vivi, nos casamentos que vi nascer como simples romance adolescente. Serei uma lembrança nos corações de quem, de mim, lembrar. Somos sementes e somos eternas. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Emergir

Passamos a vida inteira tentando nos encaixar em padrões. Para as mulheres o velho clichê namorar-casar-ter filhos-ser dona de casa, para os homens o namorar-casar-trabalhar-ser bem sucedido. Acrescente a esses modelos de vida perfeita a barriga sarada, a alimentação saudável, o caráter ilibado, o carro do ano, o apartamento com vista para o mar e planejado por um arquiteto famoso, as viagens internacionais, a vida típica de um comercial de margarina. Balela! E das grandes, das mais ridículas.
Talvez a gente não queira casar e ter filhos e, sim, priorizar a carreira brilhante que vislumbra pra um futuro próximo ou talvez não queira o carro ou apartamento luxuoso e sim em morar em uma espelunca adornada com coisas garimpadas em brechós e andar de ônibus ou de bicicleta ou simplesmente fazer tudo a pé, sem a necessidade de mostrar para os outros um estilo novelístico de felicidade. A gente quer viajar pra lugares exóticos e não os da moda, comer por vontade (ou por gula), cometer os pecados que deixariam as carolas dos primeiros bancos das igrejas de cabelos em pé. Quer viver afinal, uma vida sua, rechaçando o que a sociedade quer ou que ela diz que dever ser feito por você.
 Pra você, meu caro lhe passo um conselho gratuito: A regra da vida é não ter regras. Sim! A felicidade vem do que você realmente é e não daquilo que você poderia/ deveria/ queria ser. Você não é obrigado a seguir aquilo que o seu coração insiste em dizer que não é pra ser feito. Não peça desculpa a ninguém por ser você, e por ser diferente da maioria nem se sinta inferior por conta disso. A vida, às vezes, é uma merda quando nós a pautamos pelas comédias românticas e pelos romances que lemos. Escreva você mesmo sua história, pode ser um best-seller ou algum gênero flopado no meio da banca das promoções, mas no final será algo somente seu e do qual estará orgulhoso de ter escrito. 

domingo, 4 de setembro de 2016

Orgulhe-se.

Dias desses uma colega de trabalho me disse que eu era lindo e virou para todos na sala como se precisasse de aprovação com um “não é, gente?!”. Eu ruborizei de imediato e proferi a famosa desculpa de quem adora fugir de elogios e quer soar modesto: O que é isso?! São seus olhos. E ela de um jeito simples, mas enérgico, disse que pessoas que agem assim estão desprezando as constatações do outro e que eu deveria apenas me sentir lisonjeado porque ela falava a verdade, que ela não está errada em dizer isso. Calei-me. Dias depois, alguns colegas elogiaram bastante uma atividade que fiz na escola em que trabalho e eu mais uma vez de maneira modesta (e idiota) repeti o que já havia dito anteriormente.
O que faz com que nós, por vezes, não acolhamos o fato de sermos incríveis no que fazemos ou o jeito que somos? Medo de sentirmos que estamos inferiorizando alguém? Medo de sabermos por outra pessoa que o nosso trabalho ou a nossa forma de ser é tão maravilhosa que nos torna diferente? Receio de ser diferente? Querer rebaixar-se para ficar no “padrão” e assim ser mais um na multidão? Talvez tudo isso, mas o que menos queremos é ser um padrão, ser igual, pensar as mesmas coisas e executá-las do mesmo jeito sempre. Então por que razão querendo tudo isso, não aceitamos o fato de que sim, somos diferentes, únicos, maravilhosos, lindos e podemos ser elogiados por isso?
Orgulhe-se! Se alguém reconhece isso em você é porque isso é real, e você no fundo sabe que é. Dê a si próprio a oportunidade de reconhecer isso. A gente não gasta rios de dinheiro no terapeuta para nos sentirmos melhor? Então, por que cargas d’água não aceitamos essa melhoria em nós e paramos de ser modestos conosco de uma forma que só serviu aos santos medievais? Você é bonito! Obrigado. Fim. Você é o melhor amigo! Sim, obrigado. Você tem um talento nato para x coisa. Obrigado.
Seja grato e não modesto. Tenha orgulho do que você faz, pois construiu isso, trabalhou para isso e agora colhe os louros de tudo o que realizou. Somos importantes e queremos ser melhores? Seremos importantes e melhores, e aceitaremos isso. Se gabe por isso. Risque na sua parede que você é maravilhoso sim! Você não estará sendo pedante se é capaz de fazer ou se você é daquele jeito. Aprenda: as pessoas gostam de estar perto de outras que são felizes, completas, saudáveis e realizadas. Aceite seus aplausos com gratidão. Orgulhe-se. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Quando é necessário calar...

Aquariano tem essa coisa de querer mudar o mundo, de lutar por uma causa e de se rebelar contra as disparidades do mundo. Eu não fugiria à regra, nem que quisesse. Tenho isso em meu DNA, mas ultimamente tenho preferido calar-me por uma simples razão: não irei consertar o mundo. Minha terapeuta travou durante meses uma batalha hercúlea comigo nesse sentido, pois eu simplesmente achava que as coisas deveriam tomar outro sentido, que coisas irrelevantes deveriam ser passadas por cima para que coisas melhores fossem vistas, pontos de maior intensidade pudessem ser discutidos no trabalho e na vida e para que as coisas fluíssem de uma maneira melhor. E ela calmamente me trazia de volta à realidade com um simples “você não pode e nem vai consertar o mundo sozinho”.
Hoje, tenho plena convicção que aquelas palavras que, para mim, antes soava como um desafio e uma certeza de que EU SOZINHO SOU CAPAZ DE MUDAR O MUNDO, são uma certeza de que muitas vezes é melhor ficar quieto e observar os rumos que as coisas tomam sem ter alguma porção, ainda que mínima, de responsabilidade no que as coisas venham vir a ser. Calar e esperar são, às vezes, ferramentas-chave para não se frustrar ou não enraivecer quando você sabe que as coisas poderiam ser diferentes (e melhores) caso tomasse outro rumo. E aprendemos que isso não é um ato de covardia, mas um ato de prudência. Pois se sozinho não sou capaz de mudar o mundo, imagine conseguir modificar os pensamentos de seus habitantes?

domingo, 14 de agosto de 2016

O ano do sim!

Eu precisava escrever sobre isso. Sim, de qualquer maneira eu precisava escrever. Há alguns dias saiu a versão e-book do livro da Shonda Rhimes “O ano em que disse sim”. Mesmo sendo adepto do “eu espero para ler o livro de graça”, me vi impelido à compra. E o fiz. Passado dois dias e metade de uma madrugada em claro, eu o finalizei. O que continha nas páginas do livro da criadora de minhas séries favoritas? Apenas aquela verdade clichê dita de maneira cruel e simples. É necessário dizer sim!
O dizer sim para as coisas não quer dizer que tenhamos que ser um pateta que aceitar tudo e qualquer coisa, mas significa acolher as oportunidades que a vida lhe dá, das quais facilmente inventaria uma desculpa digna de ganhar um Oscar de melhor roteiro. Sair do quadrado da zona de conforto (cama, TV, internet e pessoas próximas) é a coisa mais difícil a ser feita, tão complicado que poderia ser comparado aos exercícios de uma aula de ioga.
Decidi então, mesmo contrariando o meu quadrado de conforto, a dizer sim para as coisas. Convites de festas, ida a lugares inusitados, atividades desafiadoras. Sim, sim, sim. Estou no nono dia, faltam mais 356, eu sei, minha terapeuta ri desse meu novo desafio (mas acha importante tentar fazê-lo) e eu espero que mudanças incríveis encontrem o meu caminho. Shonda Rhimes, eu continuo a te odiar, não por matar meus personagens favoritos em suas séries, mas por me fazer pensar que dizer sim a vida é algo possível. É PRECISO DIZER SIM!, digo a mim mesmo a todo instante. Será que eu consigo?

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Saindo de si...

Ao olhar determinadas fotos antigas a gente se depara o quanto a gente mudou e o quanto as coisas também se modificaram ao nosso redor. Os amigos de outrora são apenas meros conhecidos de uma época remota. O nosso gosto mudou, as nossas influências também. O menino calado que tirava foto sério deu lugar a um homem que adora mostrar o sorriso, mesmo em momentos difíceis. A mudança é um fator biológico que nos move, mesmo que a gente não perceba isso com clareza. Mudar é preciso. Mudar-se de si é necessário. 

Decisão

Disseram-me ainda muito pequeno que a vida é feita de decisões e elas qualificam aquilo que você é ou vai vir tornar a ser. De qualquer forma eu não estaria isento delas. Uma hora teria que decidir o que comer ou vestir, qual profissão seguir, o que deveria fazer ou deixar de fazer. Decisão. Três sílabas, sete palavras e uma confusão em minha mente. Colocar linhas de chegada, uma após outra ou me lançar nos braços do vazio? Na primeira tenho a opção de me encarcerar dentro de mim, já na segunda de me aventurar rumo ao desconhecido. Jogar a precaução de lado e subir o montanha para ver o sol se pôr ou deixar de ver este espetáculo natural? Eis a questão. 

Despedidas

Vai chegar o dia em que saudade não estará mais em meu dicionário. Em que os “adeus” nos aeroportos e rodoviárias serão substituídos por um até logo e uma certeza de retorno. 

domingo, 19 de junho de 2016

Bad Days

Não adianta calcular tantas coisas, mensurar datas, ideias, lugares, pessoas, fazer estatísticas, pensar e repensar, a vida é surpreendente. Você não conhece nada dela, nem eu. A vida é um mistério e é necessário que seja assim. Imagina se nós soubéssemos como as coisas seriam, se fossemos capazes de entender os mistérios escondidos nas misérias e tristezas que temos que atravessar?! Uma merda. Tentaríamos adiar aquilo que nos ajudaria a sair das fraldas e enfrentar esse gigante de peito aberto, aplacaríamos qualquer possível dor com remédios fortíssimos capazes de nos tirar a consciência, um caos se instalaria, pois estaríamos mimados demais para entender que a coisas nem sempre são como planejamos e que a dor é necessária para que algo bom chegue até nós. Bad day? Sempre teremos um.  

Qualquer coisa...

Dançamos com a ansiedade porque não saberíamos o que fazer parados. Apressamos o tempo para sairmos do lugar onde estamos. Incomoda-nos demais não fazer, não esperar, não beber, não comer, não assistir, não dormir, não ler, não escrever, não sair, não aparecer, não "qualquer coisa". Ocupamo-nos de todos os jeitos para nos distrairmos de nós mesmos. Se conseguíssemos por um breve instante parar, o que ouviríamos se nos déssemos ouvidos? O que enxergaríamos se nos permitíssemos ver?


Guilherme, do blog A ilha de um homem só

domingo, 12 de junho de 2016

Um dia desses...

Um dia desses, daqueles que a gente não dá nada de tão normal que é, você vai se pegar pensando em construir uma carreira diversificada com cursos estapafúrdios, viajar o mundo com uma mochila e dez peças de roupa, em ir num festival de música popular ou uma feira literária e sair todos os finais de semana (e dias de semana também). E é nesse dia sem muitas novidades que o amor decide te fisgar e lhe revirar do avesso. As viagens acontecerão com uma companhia e muitas peças de roupa, a carreira vai se solidificar, os festivais darão lugar a teatros e concertos, barzinhos e restaurantes, os finais de semana não serão tão intensos como imaginara, mas mesmo com toda essa reviravolta o seu coração vai estar feliz e em paz. E isso basta.


Humanos?

Tornamo-nos tão intolerantes nos últimos anos. Conosco, com os outros com a vida. As últimas notícias demonstram isso. Não toleramos a posição política, a religião, a forma de viver e de pensar. Tudo precisa (e deve) estar de acordo com minhas convicções pessoais. Não se escuta mais ninguém, não se congrega ou compartilha ideias, não se aceita mais críticas. É claro que não excluo aqui que nossos contemporâneos não entendem mais a diferença de opinar e ofender, mas antes disso criamos um escudo, uma couraça impenetrável que nos impede de tocar a alma do outro, ficando mais na defensiva que qualquer outra coisa, uma vida patológica, diga-se de passagem. O “colocar-se no lugar do outro” perdeu o sentido. As pessoas buscam meios de ganhar a vida e acabam perdê-la nesse masoquismo suicida do ter. Perdemos o tino, o tato, o paladar da vida. Perdemos o gosto de viver e nos tornamos essa raça que de humana não tem mais nada. 

domingo, 29 de maio de 2016

Sobre viver e mudar

O homem primitivo era aventureiro. Nômade, ele buscava melhores condições de vida em lugares inusitados, e dessa necessidade ele atingiu lugares nunca imaginados, ocupando a vasta extensão territorial da Terra. Mas esse homem antes desbravador começou a ficar preguiçoso (sedentário seria a palavra mais correta), a agricultura e a criação de animais o havia deixado estável, não precisando mais correr riscos e percorrer grandes distâncias para que a sua fome fosse resolvida. Então ele viu que deveria viver sua vida para o amanhã, pensando num futuro que por vezes não viria, investindo em construir um império seguro diante de si, mesmo aqueles mais miseráveis pensavam no porvir.
Mas que é que nos dá segurança? Um emprego estável, pessoas em quem confiar, um imóvel quitado e um carro com prestações prestes a serem pagas, um plano de saúde e um seguro de vida caríssimo? Essa é a nossa meta de vida? Ficar no esquema trabalho – estabilidade – salário – trabalho? Planejar um futuro do qual nem sabemos se iremos usufruir dele?
É, nossa vida tem sido assim. O espírito aventureiro de outrora foi enterrado por inúmeras camadas de sedimentos, e passamos a vida inteira preocupados com o futuro. Este, portanto, foge de nossa alçada, de nosso entendimento, de nosso planejamento. O futuro é uma fábrica de surpresas e tem ele nas mãos aqueles que têm a capacidade de eternamente ousar e ser diferente. Ousemos, mudemos, a vida é surpreendente quando não se está do lado da plateia. 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Positive-se

Cante bem alto para expulsar os seus fantasmas. Dance para eliminar a poeira que insiste em acumular-se perto de você. Ria até que lágrimas corram aos seus olhos, lágrimas de alegria, de esplendor, de felicidade. Livre-se de todos os que praguejam e se fecham em suas misérias. Agregue ao seu lado as pessoas que falam de si, das suas vivências, de suas perspectivas para o futuro. Trabalhe com afinco. Não há fórmula para a felicidade, mas há muitos jeitos de ser feliz.

domingo, 15 de maio de 2016

Futuro

Passamos a vida inteira nos preocupando com o amanhã. Ao deitar, traçamos metas e planos para o dia seguinte, planejamos viagens para meses depois, visualizamos sonhos de anos adiante. Gastamos dinheiro com cartomantes e mapas astrais na tentativa de prever o que vai acontecer conosco no desconhecido, como se descobrindo as coisas mudariam. O futuro, esse senhor das incertezas, é onde reside os nossos medos, mas também onde moram as nossas esperanças. E quando esperamos podemos ver que as coisas podem se revelar melhores do que acreditamos ser. Ou não.

Narciso

Eu vivi ou vivo? Não sei... Eu reclamo todos os dias de minha vida e me prostro esperando uma intervenção divina sobre ela (mesmo não crendo em Deus). Um trabalho melhor, pessoas que sejam minhas amigas, dinheiro suficiente para não me lamentar pelos cantos e uma droga qualquer que me faça ter lapsos de alegria. Eu vivo? Não sei. Estou vivo, acredito.
Eu amei. Uma, duas, dez. Em cinco dias amei três pessoas, mas elas não correspondiam aos meus interesses. Depois da conquista fiquei entediado e perdi o interesse. Mas quero me relacionar, preciso, ainda que eu saiba que vá existir uma frustração ou outra por conta do meu temperamento narcisista não declarado. Eu preciso de alguém... Alguém que preencha e atenda todos os meus pré-requisitos mal formulados.
Eu sou autossuficiente. Ergui muros diante de mim que me blindam contra o mal, maldigo, mas não tolero que falem de mim. Sou o bastante, mesmo que em mim haja a necessidade de aplausos e aprovações, elogios e concordâncias, afinal minha estima é baixa e isso me enaltece entre os demais.
Eu não sou, mas sou. Meu ego é o espelho de Narciso, onde o meu reflexo é também minha danação. Minha beleza é externa, meu ser é passageiro. Eu sou tudo e sou nada. 

domingo, 1 de maio de 2016

Ces't a fini.

Cenário: Festa de fim de ano de uma empresa qualquer. Texto: - Um brinde à falsidade de vocês. Personagem: Eu.
Ainda vou viver tempo suficiente para numa festa de fim de ano de empresa eu levantar taças e brindar contra a hipocrisia reinante, como no trecho acima. Em festas assim, todo mundo se ama e esquecem-se as brigas infindas e os moralismos travestidos de maldade. Sim, o ambiente trabalhista poderia ser facilmente confundido com um serpentário, no que deixaria o Butantã envergonhado. É um desfile de cobras das mais variadas espécies e tamanhos, umas com venenos potentes outras que apenas amedrontam. São pessoas querendo se dar bem em cima da ingenuidade alheia ou que escondem sua mediocridade em quedas de sistemas falhos ou colocando a culpa no bode expiatório da vez.
Vivemos na sociedade dos espetáculos (ruins, por sinal) e da hipocrisia. As pessoas mentem, maldizem, ferem e depois dramatizam numa teatralidade digna de um Oscar e dois Emmy’s, colocando Deus no meio de sua miséria humana num coitadismo sem fim, pondo-se de vítimas da situação. Mas o mundo dá voltas e numa destas o cuspe arremessado cai na testa. A Física é clara darling, toda ação gera uma reação o que no caso desses citados é morrer  com engasgado com o próprio veneno. Ces’t a fini

Júlia Siqueira

domingo, 24 de abril de 2016

A saudade que eu gosto de ter...

A saudade que eu gosto de ter tem um nome, sobrenome, profissão, olhos curiosos, bobagens na bagagem e um coração que cabe um mundo inteiro. Tem os sonhos mais estapafúrdios, as ideias mais mirabolantes e os beijos mais delicados e amorosos. Tem um gosto artístico ora erudito ora brega, tem um sorriso contagiante e uma alegria que transborda. Contudo possui também, os olhos perdidos, a mente atribulada, a irritação típica de quem nasce sob a regência de Libra. A saudade que eu gosto de ter podia estar em um livro de fábulas infantis, mas tá pichado num muro de uma cidade qualquer ou num verso perdido de Leminski. Poderia ser fantasia, mas é realidade. 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sobre trouxas que não são de roupas...

Engraçado como as palavras da língua portuguesa podem possuir definições diversas. Até pouco tempo, por exemplo, trouxa significava, pelo menos pra mim, um amontoado de roupas, hoje, porém, se modernizou e transformou-se em um adjetivo chamado “trouxiane”. Há alguns dias, me pediram para escrever sobre isso, sobre como é ser trouxa nos relacionamentos. Sim, me pediram um conselho em forma de texto, logo a mim que sempre por vezes tenho os melhores ensinamentos pros outros e as piores ações pra vida. Mas vamos lá.
Fazendo uma análise pessoal (cara, por sinal), com o tempo nós vamos dando conta que passamos a vida inteira querendo ser aceito por alguém. Pais, amigos, professores, colegas de trabalho, ser querido se tornou uma necessidade, um sinal de que você possui adjetivos suficientes para que seja amado pelos outros. E o pior é que a gente passa a vida querendo possuir justamente essas qualidades para agradar outra pessoa, que com o tempo eles se tornam totalmente dispensáveis.
Acho que é nesse ponto que nós começamos a deixar de sermos trouxas, a partir de quando nós assumimos o controle das nossas decisões e vontades e não ficamos preocupados em atender padrões, observar regras impostas em querer ser aceitos. A aceitação tem que ser pessoal, o amor antes de ser de alguém tem que ser seu. A pessoa agradada antes tem que ser você. E isso não são apenas sinais de só parar de ser “trouxiane”, como dizem atualmente, é sim antes de qualquer coisa, despertar para viver. 

sábado, 12 de março de 2016

Ser da Terra

Eu sou terrena, me condene por isso. Sou daquelas que amam os prazeres de viver nessa Terra cheia de problemas e não num céu de virtudes e belezas. Cara, a terra é uma merda maravilhosa. Tem o rock, tem vinho, tem vodca barata, tem arte, tem sexo, tem sono, tem hambúrguer e Coca-Cola, num combo feito pra gente morrer de ataque cardíaco no meio de um trânsito caótico. Viver é massa. Viver o agora é melhor ainda.
 Tenho nojinho daquelas pessoas que perdem o tempo em uma vida devotada para um futuro distante e não vivem a porra do agora. Fazem planos de casas de varanda e carros que nunca terão, trabalham feito louco para deixar um trocado pra filhos miseráveis que não cuidarão destes e os colocarão no primeiro asilo quando assim surgir oportunidade, não se aventura por não ter plano de saúde capaz de cobrir o estrago. Gosto de gente que faz tudo o que lhe dá vontade, não reclama da merda de vida que leva porque sabe que as coisas melhorarão um dia, mesmo que esse dia nunca chegue, gosto desses que viajam apenas com a passagem de ida e uns poucos trocados e se arrisca a cantar um verso de Caetano em um bar caído para faturar um troco.
Gosto de gente, isso é ser terrena. Se gostasse de anjos e pessoas certinhas eu seria daquelas que lotaria os bancos da frente da Igreja, mas nasci sem vocação nenhuma pra isso. Perdoem-me, me julguem, não sou ateia, sou à toa e isso é o que me faz feliz.

Júlia Siqueira


quinta-feira, 10 de março de 2016

Sinceridade?

Hoje falar abertamente o que se pensa é sinal de ofensa, não porque as pessoas ficaram melindrosas demais, mas sim porque se acredita que sinceridade é sinônimo de ofensa. Ser polido no que se fala e, assim, expor seu ponto de vista sobre alguma coisa é uma totalmente diferente de vociferar aquilo que acredita por cima de gritos e palavras de baixo calão.
Não ficamos cheios de dedos, nos tornamos arrogantes, achando que a forma que a gente pensa é o certo e por isso deve ser aceito pela maioria. E quando isso não acontece apelamos de maneira baixa e rasa dizendo que sofremos preconceito. Chega a ser cômica, para não dizermos trágica, a forma como tratamos o preconceito na atualidade, colocando qualquer discordância mínima como um problema de ordem pessoal e social, que nos denigre, avilta e destrói. Antigamente as pessoas sofriam em condições muito piores que hoje e nem por isso vitimavam-se, muito pelo contrário, fazia disso escada para melhorarem sua vida.
Como foi que chegamos a este patamar? Fácil. Deixamos de ser incentivadores do conhecimento e da crítica e nos tornamos compartilhadores de opiniões alheias, no melhor sentido do termo “maria-vai-com-as-outras”. É simples, rápido e fácil pegar carona em um pensamento primitivo do que entender a complexidade das coisas. Enquanto isso, formamos uma geração de ignorantes, no sentido de ignorar o mundo, as coisas e a vida. E a sinceridade? Ela deu lugar ao silêncio, afinal é melhor calar-se do que mostrar o que realmente se pensa... No fim, há pessoas não acostumadas com o intricado da vida que podem se inflamar com o que é dito e haja anti-inflamatório para distribuição em massa. 

sábado, 5 de março de 2016

Amor e paixão

Tem gente que acredita que amar é uma coisa diferente de se apaixonar. A paixão é fogo, brasa que queima os corpos que se unem com excitação, palavras ditas no ouvido, carinhos intensos e constantes, a constante inovação. Amor, ah... O amor é outra coisa, certo? Errado. Engana-se aquele que acredita que o amor não pode ser efusivo, que o amor é calmo como um mar sem ondas, que amando você não sente as mesmas vontades, mas acerta-se quanto à diferença da paixão.
Quem ama entende que você não precisa dizer eu te amo sempre, incansavelmente, em momentos diversos. Quem ama o faz com o olhar, numa noite de sono da pessoa amada ou num simples gesto cotidiano. Quem ama acha que o ciúme é um acessório e não uma roupa, deve senti-lo, mas não deve vive-lo, pois é criado paranoias e faz-se existir histórias estapafúrdias. Quem ama aceita você do jeito que é, mas quem é apaixonado quer mudar algo do outro, quer fazer vive-lo conforme aquilo que se acredita.
Sim, amar é diferente de apaixonar-se, porque amar pode ser uma eterna paixão, mas o contrário não. 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Esperas...

Eu fico por vezes querendo adivinhar seus silêncios, mas é tudo tão incerto que só ouço o cricrilar dos grilos. O que pensa? O que quer? O que sente? (Pausa). Não devo falar, perguntar talvez? Não. Há dor, há saudade, há tristeza... Eu sei... Quanto a mim, tenho vontade de arrancar tudo isso de ti e sofrer sozinho suas incertezas, suas mágoas, sua dor, mas não posso, tenho as minhas próprias dores, dores de alma, dores de distâncias, ausências de você. Então me calo, espero. As esperas são as certezas dos que amam. Eu espero que tudo se acalme.

Me espera? Chego já!

Viajar é mudar a roupa da alma.

Lembro-me de minha primeira viagem. Mãos suando, coração a mil, ansiedade a flor da pele. Eram poucos quilômetros, mas isso não importava, era a oportunidade de ver as coisas sobre outro prisma. Os anos passaram, a quilometragem mudou, agora lugares mais distantes e culturas e hábitos cada vez mais diferentes, meu coração, entretanto, ainda acelera, o nervosismo ainda acontece de maneira igual. Viajar é dar umas férias a alma, é uma oportunidade de sair do rotineiro e dar asas ao viver.  Sinto a cada dia que a minha alma é do mundo e meu coração não tem país.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O que nos falta...

Não é amor o que nos falta, não. Toda gente tem amor, esse sol que é sempre sol, é da natureza dele ser assim. O que varia, como variam os instantes, é a quantidade de camadas de nuvens de confusão, de ignorância, de raiva, de medo, que o encobrem. Tem vez até que acinzentam o céu todinho pra depois fazer a vida chover torrenciais embaraços. Tudo bem, chuva sempre passa, tempestade que seja.
Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes, nos falta é soltura. É expressão. É desarme. É poder dançar com a vida sem passo marcado. É parar de dar trela pra bobagem. É desacreditar que somos especialistas em afeto. É parar de julgar. É parar de encher barriga de dor. É mudar a faixa do CD que canta o passado com drama.É escolher deixar de chorar pelo sofrimento vivido em 1815. É levar luz pra conversar com a sombra e deixar que as duas se entendam e se tornem amigas. É a ousadia de descolar o umbigo de qualquer orgulho, arrogância e redondezas.
Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes nos falta, é perceber que os relacionamentos são mais vivos tanto o quanto são imperfeitos porque perfeição, no contexto humano, é quimera. O amor é perfeito, mas nós, seus recipientes, ainda não. Dizemos tolices, fazemos tolices, quando queremos apenas dizer a nossa admiração ou gratidão ou encanto ou tudo junto. Todos nós falhamos no amor, e às vezes falhamos muito, mas o que continua a nos mover, mesmo quando nos atrapalhamos, eu acho, é o destino de acertar cada vez mais um pouquinho. De soprar mais um pouquinho as nuvens. De deixar o nosso sol dizer mais um pouquinho o seu tamanho todo.
Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes, nos falta, é a capacidade de perdoarmos a nós mesmos e aos outros. Perdoar com a consciência da terna compaixão, da generosidade, da empatia, porque muitos de nós vivemos boa parte da vida como sóis culpados, como sóis assustados, mas todo sol, por trás de toda culpa, de todo susto, de qualquer enganosa aparência, quer apenas sorrir o seu lume.
Às vezes, apenas ainda não sabe como. Saberá. É da natureza do amor. O que nos falta não é aprender o amor. O que nos falta, sobretudo, é desaprender o medo. Nisso também, não importam os enredos, estamos todos juntos.

Ana Jácomo