domingo, 23 de agosto de 2015

Surpresas

E se um dia o príncipe beijado virar sapo e o sapo ser o príncipe? E a sandália perdida doer no pé, o beijo não despertar o sono ou os cabelos serem curtos demais para se atirar de uma janela? E se tudo o que você achava que fazia sentido já não fizesse mais, e, ainda assim, isso lhe desse um alento sem fim? A vida tem dessas coisas. A gente investe alto em certas coisas e outras que eram esquecidas na gaveta é que dão certo. É uma clara resposta de Deus dizendo: - Eu sei o que você precisa pra ser feliz.

domingo, 16 de agosto de 2015

Por ser mulher...

Sou apartidário e há tempos incorporei às minhas ideias não votar em ninguém que apresente mais do mesmo. Hoje, entretanto, me inquieta ficar calado. Lembro-me que em 2010, os veículos de comunicação de massa saudavam, em um feminismo quase uníssono, a entrada da primeira mulher presidente do nosso país. Hoje passados quase cinco anos do seu governo (eleita e reeleita ano passado) percebo que os discursos daquela época era apenas euforia de momento. Hoje vemos latente a falta de respeito que se há com uma mulher, que independente das situações de corrupção crônica no Brasil, tenta aprender o serviço que lhe foi designada pelo povo, só que embaixo de xingamentos de uma população que ela representa, mas que não a respeita.
O que eu questiono e analiso nestas linhas é que somos ainda ligados a valores patriarcais arraigados, pairando no nosso inconsciente coletivo de maneira esdrúxula e vil. Uma mulher não serve para governar um país, ela tem que sair, uma mulher não dá conta dos serviços fora de casa, mulher foi feita pra lavar, passar, cozinhar e dar, fora disso qualquer erro é falta de competência em assumir um cargo que ela não tem culhões para enfrentar. Um homem nas mesmas condições não enfrentaria tamanho preconceito. Um homem nas mesmas condições não seria achincalhado. Por quê? Simplesmente porque ele é homem. Não é sobre não ser competente, é por ser mulher.
Nisso eu sinto certa pena da presidente, não em relação a sua situação política atual, não pela crise política ou pela situação econômica, e sim por ser uma mulher sendo massacrada por todos os lados sem nem o direito de usar a Maria da Penha em seu favor. Porque um tapa dói na carne já palavras doem na alma. 

domingo, 9 de agosto de 2015

Sobre o tempo, a paciência e as feridas da alma...

Aceleram-se as horas, os minutos, os segundos. Há urgência. Há pressa. O ritmo do relógio parece não conspirar ao nosso favor. Se tivéssemos 32 horas no dia, como em alguns planetas, não teríamos tempo (sic!) para cada um dos momentos cotidianos e ainda acharíamos havia algo a ser feito. Bem vindo à contemporaneidade ou era pós-moderna, ou ainda algum momento cibernético e científico da história da humanidade sem nomenclatura. Há urgências aqui e as coisas têm que ser para agora. 
O início e o fim tornaram cada vez mais próximos em nosso tempo, e em todas as instâncias. Em contrapartida de tudo isso, nossas feridas interiores não saram na mesma velocidade que os nossos desejos clamam. Seria fácil por um band-aid, tomar um analgésico e seguir pra próxima batalha, entretanto não funciona desta maneira. Elas precisam doer, elas precisam de paciência para serem fechadas naturalmente, sem nenhuma intervenção. Nossas dores precisam de tempo e tempo é tudo o que não temos. 

domingo, 2 de agosto de 2015

Padrões

Eu tenho que todos os dias dizer pra mim mesmo ao levantar que não tenho como te colocar nos meus padrões, e, assim, aceitar que somos duas pessoas distintas lutando para que algo bacana entre nós dê certo. Além disso, tenho que respeitar a sua individualidade, o que é SEU, e entender que somos um antes de ser dois. E isso é o difícil, porque nos ensinaram desde a mais tenra idade que deveríamos ser um só, como o princípio bíblico que diz “e se tornaram uma só carne, um só espírito”. Mas vejo que realidade nem sempre é assim. Eu gosto de viajar pelo mundo e você gosta de viajar vendo TV em casa. Eu gosto do blues, do jazz e do rock e você de qualquer coisa animada que lhe faça dançar. Eu discuto sobre astrologia, religião, política e economia e você quer apenas saber o que vai ter pra jantar ou se precisaremos ligar pra pedir a quarta pizza da semana.  Então, a única certeza é que mesmo tão díspares e opostos decidimos em algum momento nos amar e nos complementar mesmo que separados as nossas diferenças sejam cada vez mais acentuadas. Não é fácil (ninguém disse que seria), mas eu me sinto tão seu (mesmo sendo eu) em gênero, número e grau que nunca pensei que seria um dia. E assim, me vejo todos os dias reafirmando em voz alta, para que as palavras consigam ecoar no mundo (e em mim) que para amar a dois, é necessário que eu ame a um, a mim, e só assim posso entender e aceitar que não mudarei ninguém a não ser a mim mesmo. 

Deixe de ser trouxa, por favor?

Quanto tempo levará para que perceba que você é trouxa? Dois meses? Um ano? Uma vida inteira? Ok, my dear sem progressões ( i promise), mas não com mentiras. Pare de dizer eu te amo para o primeiro desconhecido que lhe apresenta todas as formas clichês de amor já batidas pela indústria hollywoodiana, porque a paixão é um drama francês que nunca acaba bem ou quando acaba é mais real que “o felizes para sempre” que nos iludiram desde a infância. Pare de achar que mudará alguém, que é questão de tempo, porque como diz a música temos nosso próprio tempo, mas esse tempo gasto em mudar alguém, que não mudará, é com certeza tempo perdido. Então concentre seus esforços em você, espere, confie, o cara certo não baterá na sua porta, mas pode esbarrar em ti em qualquer lugar esdrúxulo e logo em um momento em que você estará com cara de capivara atropelada, mas mesmo assim ele quererá conhecer-te. E ele não será um príncipe encantado num cavalo, nem o malhadão da academia, nem o cara que lhe recitará Vinicius na segunda conversa. Ele vai te beijar, transar com você de maneira enlouquecida, falar piadas ridículas de português e te fará sorrir, apenas.  Sim, ele vai ser de verdade em uma multidão de mentiras, mas é preciso que você deixe de ser uma adolescente retardada à espera de um marido de comercial de margarina. As pessoas são fodidas, neuróticas, malucas e isso é o melhor de tudo nelas. Deixe de ser trouxa, por favor. Não leve tanto tempo para ver que o mundo, mesmo sendo essa merda, pode ainda ser uma merda interessante.


Júlia Siqueira

Ao balconista

Bom dia, senhor
Quero lhe devolver os conselhos todos que comprei e não me adiantaram. Quero trocá-los por receita pronta, ou fórmula. Mando manipular. Mando buscar. Mando trazer. Dinheiro não me falta, isso não é problema. Apenas me dê um alívio para os meus desesperos. Preciso de algo para a dissolução imediata das minhas angústias. Qualquer coisa para a absolvição das culpas. Tem?! Vitamina para combater contradições e nós na garganta? Pomada para evitar sofrimentos antecipados? E para o durante e o depois, nada na prateleira? Comprimidos para não se engasgar com as mágoas, para digerir as perdas. Algum repelente contra os medos, será que aqui encontro? Um chá para diminuir exigências e ressentimentos. Um fortificante para os meus sonhos, um inibidor de ansiedades? Não precisa ser genérico. E para coração partido, acha que é caso sério? Devo procurar um especialista? 
Não, não quero nada para desaparecer senhor. Não acho que seria bom, sabe?
Sinto-me ausente de mim faz tempo demais...
Tudo bem. Eu aguardo o senhor ir ao estoque. Enquanto isso, distraio-me.
Como sempre faço.



Guilherme, do blog A ilha de um homem só