domingo, 22 de março de 2015

A vida não está em uma caixa!

Nos últimos dias discute-se que a sociedade não está preparada para ver algumas coisas (cito o tão famoso beijo entre Fernanda Montenegro e Nathália Timberg na novela das oito). Digo e repito: a sociedade (nós) não está despreparada para ver certas coisas, na verdade estamos anestesiados e com preguiça de mostrar o que há lá fora para as nossas crianças e assim entender que a vida não é uma idealização dentro de princípios dos quais não utilizamos, mas reclamamos os direitos autorais.
Não é uma caixa animada que ensina ou influencia, somos nós. A televisão não ensina uma criança a beber ou a fumar, somos nós que influenciamos dentro de casa. Nem tampouco a televisão influencia a criança a ser má e mentirosa, são as ações conjuntas da sociedade que a levam a ser dessa forma. Exemplifico: uma criança vê o pai criticando uma mulher por se vestir de maneira "indecorosa" e dessa maneira se sentirá à vontade de fazer o mesmo, pois encontra apoio. As crianças não nascem preconceituosas, observe que elas não fazem distinção de amiguinhos, mesmo que estes façam parte de uma condição social e econômica diferente da que nasceram, isso elas aprendem isso com a gente.
Somos nós os espelhos de nossas casas, mas não é por isso e por outras coisas que devemos criar os nossos filhos em uma redoma. Não criamos ninguém para nós, nossos filhos não serão animais de estimação, presos em nossas gaiolas, eles criam asas e seu voo é orientado por nós, mesmo que eles tomem rumos contrários. Sendo assim, não critique a vida que ele escolheu mesmo que você não aceite, apenas respeite. O respeito de entender que mesmo você tendo dado a ele ferramentas para ele crescer e não sofrer, ele interpretou diferente de como você concebeu e vive conforme acha correto.
E ao discutir uma sociedade que você defende como correta, questione a si próprio: O que é correto pra mim? O que é socialmente aceito? A partir dessas discussões você entenderá que transgrede mais que qualquer um que beija alguém numa novela.

É preciso desbravar...

Lembro que estudei certa feita que nós homens migrávamos conforme a nossa necessidade. Enfrentávamos animais ferozes, eras glaciais e todas as vicissitudes do caminho a procura de alimento para nossa sobrevivência. Nos tornamos acomodados um pouco com  descoberta da agricultura mais adiante, é bem verdade, mas nunca perdemos essa vontade, que é tão nossa, de desbravar e ir além, além de nossas possibilidades e talvez do que achávamos ser possível. Atravessamos oceanos, nos metemos em meio a matas desconhecidas, conhecemos povos diferentes. O nosso espírito aventureiro, entretanto, foi morrendo a ponto de acabar. Não conseguimos ser além, ir além, transpor o nosso comodismo. Não conseguimos inverter as ordens geográficas e amar o longe e o desconhecido, porque o que é fácil é menos doloroso e talvez mais prático (e não é!), não conseguimos visitar um amigo que mora na mesma cidade usando inúmeras desculpas, sendo a mais usual a distância e falta de tempo. Retrocedemos. 
Por favor, se foi alguém, que não seja nós mesmos, roubou essa nossa capacidade de sermos diferentes, favor nos devolver com caráter de urgência. É preciso que voltemos a desbravar a nossa alma e nosso meio.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sobre a promessa...

Promessa é vontade que hoje seja amanhã também. Promessa é sonho incerto de acordar sonhando. Promessa é esperar semente nascer em qualquer terra.  Eu não quero que você prometa nada; quero que você seja agora, toda e inteira. Porque hoje eu estou; amanhã eu não sei. Hoje, eu vou; amanhã (quem sabe) não virei. E lhe conto tudo o que sei: que hoje sou, será, seremos. Amanhã, não sabemos. Hoje, ganhamos. Amanhã, outros planos. Por isso te quero agora, toda e inteira. Aqui a gente tem certeza. Acolá, é surpresa. Aqui, colheita das flores. Acolá, carrossel de amores. Por isso peço, fica agora. Porque os planos se fazem e se costuram por eles. Na casa se mora quando construo as paredes. Uma a uma, sem pretensão de mansão. Pintemos a esquina e depois traçamos cidade. Comamos do fruto pra descansar na pastagem. Curtamos entrada pra não querer ver saída. Bebamos agora o inteiro da vida. Porque promessa é parcelar felicidade. E eu a quero toda e inteira. Cuidemos juntos da flor e depois herdaremos jardim. Porque promessa é somente sobremesa, distante degrau. E hoje é se servir pleno do prato principal. E no menu, encontros sem desencontros, perfume, clareza, encantos. Promessa é ponte de papel pela qual quero percorrer. E prometo hoje meu Amor, que pra ti nunca mais vou prometer.

Guilherme Antunes, A ilha de um homem só

As lembranças do que não vivi.

Não lembro uma vez de ter ido à praia apenas para molhar os pés ou ficar observando o quebrar das ondas como espectador passivo daquele fenômeno. Nunca gostei de ser coadjuvante. Eu corria para a água, sentia as ondas espancarem meu corpo, o sal cortar meus lábios e a demora em permanecer ali enrugar meus dedos das mãos. Não era ali uma paisagem solitária e sim eu como participante daquilo tudo. No viver não é diferente. Desaprendi desde o nascer a ser raso, a ser mais um, a ser o cara não notado na mesa do restaurante. Às vezes passar despercebido é bom, mas não como regra. No trabalho eu nado, pego carona nas ondas, jogo pra cima com as mãos litros de água. No amor mergulho, me entrego, me afogo, me salvo. Logo, não entendo quem vive de carona, de observar apenas, de não ser.
Não lembro de ter entrado em alguma coisa com o objetivo de desistir, sempre pensava nos louros da glória final e no êxtase de cruzar a linha de chegada. Claro, inconscientemente não fomos preparados para perder e nem muito menos para fazer o nada por nada, muito menos eu me propunha começar alguma coisa para abandonar logo de primeira. Nunca funcionou isso pra mim. Essas minhas lembranças de não ter sido, só me fazem pensar que a vida é mais que desenhar nomes na areia que a são facilmente apagados e sim construir castelo, que mesmo destruídos, serão lembrados por mais tempo.

domingo, 1 de março de 2015

Questões filosóficas

Nem tudo na vida depende de amores ou gravita em torno deles. Sim todos, assim como na alegoria platônica, procuramos a nossa alma gêmea e blá blá blá, mas eu me pergunto, e se ela não nasceu, ou melhor, e se ela anda encontrando em outro aquilo que deveria encontrar em mim? Vivo nessa busca incessante em encontrar no outra a felicidade que é minha meta ou tento ser feliz com o que tenho? Nestas questões filosóficas, Socrátes bem diria a sua famigerada frase “só sei que nada sei”, e eu... eu concordaria com ele plenamente. 

O amor é imprevisível.


Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.
Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?
Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retratos e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.
O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.
O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.
A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir “eu te amo” num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir “eu te amo” numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.


Martha Medeiros