terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Felizes para sempre?


Acontece que fomos condicionados, desde a mais tenra idade, a buscar o feliz para sempre das fábulas infantis, naquele universo surreal em que patinho feio era um incompreendido cisne, as princesas e heróis tinham suas vidas facilmente resolvidas pelos laços de amor que os unia, amor este que por muitas vezes era à primeira vista e que se selava rapidamente com um casamento e filhos, como uma receita simples e rápida para a felicidade, entretanto esse mundo não existe e a fábula não consegue encontrar respaldo na realidade. É aí que vagamos na floresta encantada de prédios cinzentos e gente distraída, procurando alguém que complete as nossas frases e atenda os nossos desejos. Infelizmente, esse alguém não existe.
Não existem pessoas prontas, no mundo não há bons ou maus, nesse maniqueísmo fuleiro que a mídia tenta vender, encontramos pessoas que nos satisfazem aqui e ali ou completamente devido a alguns poucos ajustes. O problema é que não gostamos ou não temos paciência para as adequações. Ajustar gostos e afinidades? Jamais. O produto tem que vir em ótimas condições e atender os desejos do cliente e em caso de defeito devolve-se à fábrica na certeza de reembolso ou troca imediata. E o felizes pra sempre lá dos livros, lá do nosso inconsciente, ganha uma interrogação quando se deveria haver um ponto final, afinal a infantilidade de algumas fábulas, em nossas vidas, fez morada.  

domingo, 25 de janeiro de 2015

E isso apenas bastava.

Lembro-me dos gritos de minha mãe. Lembro-me do cuidado excessivo de minha avó. Lembro as raivas silenciosas de meu avô. Dado um momento, achava que aqueles excessos impediam-me a liberdade e a vontade de crescer. Lembro-me das incontáveis noites mal dormidas de minha mãe esperando-me chegar da faculdade, fora as tantas noites nas quais minha avó, entre Ave Marias cochiladas, me aguardava chegar de alguma festa. Recordo ainda de tantas vezes que me reprimiam de maneira enérgica em uma cena épica e digna de ter sido exibida em qualquer novela do Manoel Carlos. E tudo isso hoje me basta. Me basta para entender que o amor às vezes é chocante, é cuidadoso, que o amor adora advertir, reclamar, cuidar.
Hoje me satisfaz saber que eles davam seu amor sem saber como dar. Amava-me apenas. E isso é o bastante para entendê-los.

Lembrem das crianças de Gaza

Minha infância foi roubada por uma bomba "amiga". Nasci entre corpos mutilados e pessoas ensanguentadas ali naquela guerra que eu não sabia a razão de existir. Chorei alto para que o meu choro suplantasse os bombardeios na casa de meus avós como se prenunciasse a nossa despedida quando deveria ser o nosso primeiro contato. Corria com medo pelas ruas desertas. Era refugiado, sem pátria, sem um lar para chamar de meu. Um dia morávamos nos arredores de Rafah em outro não sabia pronunciar o lugar pra onde ia. Não tive amigos, porque não tive raízes, não tinha com quem brincar, pois minha mãe pouco deixava sair. Perguntava a ela o porquê de tantos tanques na fronteira, certa vez, e ela disse que eram vigias a nos espreitar. E o que fizemos de errado? – questionava. E ela, olhos marcados pela dor e conformidade de quem também entendia pouco de tudo isso, apenas sussurrou entre dentes: - Nascemos aqui. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O bilhete que ia pro lixo.

Não é necessário que eu repita a todo instante que eu te amo, como despertador de assalariado que tem que acordar cedo na segunda para trabalhar de ressaca e a droga do objeto não para de apitar ao lado da cama. Isso é muito chato, é cansativo, não cabe mais na nossa idade e nem nos sulcos das nossas testas. Você sabe, eu sei, todos os outros do universo também já sabem, mas parece que você precisa de um evento cósmico, um abalo sísmico, uma estrela cadente, um feitiço celta ou a atenção de um Maracanã inteiro para que o que nós sentimos se efetive em um grande momento. Com todo esse episódio eu dormi duas vezes, cochilei outras tantas, enquanto meus dedos automaticamente desenhavam as letras no papel em que me ponho a escrever essa direta pra você. Acho que pra economizar palavras rasgarei isso aqui e colocarei um selo velho da época da ditadura, com os dizeres, AME-O OU DEIXE-O. No nosso caso, falo de mim mesmo, me ame ou me deixe, mesmo preferindo que você me ame e acabe com essa besteira toda. Obrigada.

Júlia Siqueira

Indiferença

Se o ano novo que nem um caminhão de mudanças me trouxe alguma coisa ou um sentimento foi o da indiferença. Envelheci mais um ano (merda!) e sinto que um passarinho passando e uma bomba atômica explodindo ao meu lado ou um vulcão em atividade a poucos metros de mim são coisas quase que semelhantes. Desaprendi. Na verdade neste texto de início de ano vamos falar de duas coisas, primeiro da indiferença, e, segundo, do quão bom é desaprender certas coisas (e ainda saber fazê-las caso necessário).
Desaprendi a me assustar ou fazer qualquer alarde diante de uma situação ou algo, dramatizar (ainda que momentaneamente) coisas banais que ficariam bem como mote de uma telenovela ruim, mas que na vida real não dá um ponto na audiência. E talvez no fato de ter desaprendido essas coisas eu tenha, ainda que magicamente, me tornado indiferente. Vejam como as coisas se complementam. E é bom. É bom não ligar, viver desencanado das coisas a ponto de perdoar e esquecer no automático e gritar ainda que em silêncio que você consegue estar desapegado e dormir com a consciência tranquila de quem limpou o nome do SERASA e pode retirar o tão sonhado carro do ano que estava em restrição.
 Acho que esse ano e uma crise pessoal e existencial dos vinte e poucos estão me fazendo refletir que a vida não é o drama teen norte-americano. A vida é uma coisa boa degustando uma taça cara de estou me lixando pra tudo isso.