sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

SOS Educação

Numa semana em que alunos são surrados por fazerem um protesto contra o fechamento de escolas, paira sobre nós, além de uma indignação, uma tristeza por perceber que o mundo a cada dia mais se torna um lugar incoerente e difícil de entender. O senso de comunidade já não existe mais, uma vez que passamos a viver apenas observando os nossos próprios interesses. Em meio educacional não seria diferente.
A educação convalesce a cada dia, por conta de que, dia após dia, vemos que alguns, ditos profissionais, vislumbram nesta a possibilidade de ascensão social e não de melhoria ou mudança coletiva. Explico: a educação brasileira precisa de índices e se sustenta neles e não em qualidade. Uma nota, um número, nem sempre corresponde à excelência, se assim fosse, não teríamos gênios que em suas escolas eram alunos medíocres. Mas a nota de que trato não é essa. Uma escola precisa de números de aprovação para receber verbas complementares para melhoria de suas atividades curriculares. Ótimo. Entretanto, isso pressupõe que alguns alunos serão progredidos mesmo não sabendo muito. Já perceberam o número de pessoas que escrevem mal nas redes sociais e são graduadas? Ou ainda aqueles que não conseguem compreender textos curtos ou fazer cálculos simples?
Nas escolas, o aluno muda de nível porque ela precisa cumprir uma meta. O prefeito cobra à secretaria de educação, que cobra à direção escolar, que cobra à coordenação pedagógica, que cobra ao professor, que cobra ao aluno, que cobra aos pais, que cobra da escola um ensino melhor. E o conhecimento? Não falamos dele. Parece que ele se tornou menos importante. O importante aqui é mostrar que a escola é padrão, é modelo, ainda que ela não sirva à comunidade além das suas possibilidades, mesmo que ela não dê à sociedade bons profissionais, e sim pessoas que nada sabem e são presas fáceis do dinheiro rápido e das oportunidades baratas.
É notório que a educação pública brasileira urge de uma reestruturação em todas as esferas. Fica evidente a cada dia o descaso crônico e o comodismo de uma sociedade inteira, desde o pai considerando a escola um depositário de seus filhos às gestões nada democráticas de indivíduos que temem perder seus cargos, e, assim, sua pose institucional.
A educação não precisa de covardes, mas de pessoas que lutem, briguem, não temam trazer o melhor, saibam ouvir as críticas de maneira altiva, saibam ter autoridade sem ser autoritários e nem muito menos se escondam atrás de títulos ou nomeações. A educação agoniza, cabe a nós ajudarmos a salvá-la. 

domingo, 22 de novembro de 2015

Calado


Eu que antes escrevia por longas horas a fio, hoje não consigo mais escrever tanto quanto outrora. A culpa? Você. Não consigo talvez colocar no papel as coisas que passamos juntos ou descrever com toda minúcia e detalhe o que acontece quando estamos juntos. Por quê? - pergunto-me. Talvez seja porque qualquer romance de José de Alencar seria fichinha para nosso amor, precisando com toda certeza de toda a literatura romântica e seus velhos chavões e melodramas. Então me calo, mesmo querendo pichar os muros com as mais bregas declarações de amor. Calo-me mesmo com o coração gritando músicas de cantores desconhecidos. Calo-me para planejar viagens, ver caminhos e sonhar com meu futuro. E eu que não acreditava em vidas passadas, passo o tempo calado, sem conseguir escrever, planejando minhas vidas futuras agora que te encontrei. 

Não prometa!

Eu nunca gostei de promessas, nem as religiosas, nem as de dieta na segunda, nem as que dão conta de parar de beber, nenhuma. Promessas são mentiras para si, são contratos e compensações medíocres. Promessas religiosas tratam Deus como um mercador, eu faço isso e você retribui. As promessas de começar uma dieta na segunda sempre acabam em desculpas ou em comilança na quinta. Mas as piores são as promessas de amor. Prometer que vai mudar algo que não se quer é uma das piores mentiras do mundo. Talvez você prometa (e minta) por que não tem coragem suficiente de dizer ao outro que ele tem que aceita-lo dessa maneira. Nos relacionamentos quando não há adaptação ao jeito do outro deixando claro antes que adaptar-se não pressupõe mudança brusca e sim gradual tudo vira um jogo de empurra. Por isso não prometa aquilo que você não pode cumprir ou dar. Não prometa, se quiser fazer, faça, caso contrário continue do jeito que está. No meio do caminho sempre encontramos alguém que não queira mudar o nosso jeito de ser, simplesmente aceita a ideia de que para apreciar a beleza das rosas tem que conviver com a dureza dos espinhos. 

Prisão sem grades

Observei durante anos a sua prisão. Prisão sem grades a sua, presa a um sonho de mudar alguém ou moldá-la para parecer melhor, ideia fixa que aos poucos se transformou em algo patológico a ponto de subverter sua subjetividade para atender supostos interesses de outrem. Mas nenhum cárcere é eterno, demorou bastante, é bem verdade, mas hoje, encontra-se livre e solta da prisão que construiu ao redor de si. Liberdade exala por seus poros e há muito não vejo tamanha felicidade em você. Certa feita em um livro li que há pessoas que nos roubam e há aquelas que nos devolve. Você só precisou parar de permitir que lhe roubassem a paz e se devolveu a si mesma. Amor só é amor de verdade quando antes de ser para alguém ele é apenas seu.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Você colhe aquilo que semeia.

É inegável afirmar que Jesus é o homem mais inteligente que passou por esse mundo, uma vez que suas palavras ainda ecoam em nossa existência de modo inimaginável. Simples filho de carpinteiro e de uma dona de casa, Ele preferiu uma vida de sábio, comedido em palavras, mas profundo nelas. Certa vez ele proferiu a seguinte máxima: “Pedi e vos serás dado, batei e serás vos aberto. E qual entre vós é o homem que pedindo o filho um pão lhe dará uma pedra?” Existe uma lógica simples e profunda em tais palavras: você colhe justamente aquilo que você planta, ou melhor, você tem justamente aquilo que você atrai e pede para a sua vida e tem a resposta imediata daquilo que fora solicitado, numa explicação espiritualista da lei do retorno.
Se você planta amor terá ele em dimensões multiplicadas, mas se planta ódio colherá aquilo que você fez brotar e regou. Portanto pra que vitimizar-se de algo que foi escolhido por ti? Isso é o mais difícil nas já complicadas relações humanas. As pessoas criam suas próprias tempestades e depois reclamam quando chove. Mas não era justamente isso que queria? Por que lamentar-se ou se colocar como vítima das situações que criou?
Às vezes não existe um culpado senão você mesmo para as coisas que andam acontecendo em sua vida. Cora Coralina dizia que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores e como ela, é melhor plantarmos coisas que embelezam a vida de quem convive conosco que construir um muro ao nosso redor sem que estas possam ver realmente o que somos. 

domingo, 11 de outubro de 2015

Crise?

A frase mais ouvida nos últimos meses aqui no Brasil é: “estamos vivendo um momento de crise!”. Mas será verdadeira? Crise de que? Crise para quem? Crise por quê? Acredito que estamos vivendo um momento difícil em escala global, mas acima de tudo tensão ao que diz respeito sobre a nossa relação com o outro. Visualizo uma falta de humanismo no ser humano, o que infelizmente poderia ser apenas um joguete ruim de palavras, mas consiste em jogar as toalhas a ponto de perceber que talvez não tenhamos salvação.
Desrespeitamos a nossa casa comum, as pessoas que nele vivem, pomos muros para separarmos ainda mais uns dos outros, barreiras físicas, barreiras ideológicas, barreiras religiosas. Esquecemos de nos proteger como espécie e andamos nos destruindo fisicamente e moralmente em defesa de pensamentos doentios e mesquinhos. Vivemos em um país lindo, que tem tudo para nos orgulhar, mas afundamos esse navio chamado Brasil com mentiras e corrupções sem precedentes e quando somos chamados à responsabilidade, colocamos de maneira endêmica a culpa em outrem.
Então, qual crise vivemos atualmente? Econômica? Social? Política? Nenhuma destas. Vivemos uma crise de identidade coletiva. Esquecemos de ser humanos. 

domingo, 27 de setembro de 2015

Amores líquidos

Acabei de ler o livro Amores Líquidos do sociólogo polonês Zigmunt Bauman e terminando o êxtase ao finalizar mais uma obra dessas, eu digo apenas três palavras ao final de 183 páginas: Li apenas verdades. Os relacionamentos aos quais ele discorre e nos são tão familiares são fluídos e efêmeros. A busca incessante da pessoa perfeita nos torna cada vez mais descartáveis em um mundo de prazeres passageiros e pessoas frívolas. E no final ou você se adapta a esse meio ou corre o risco de ficar só.
Em cada parte do livro ecoava em minha mente as palavras da minha terapeuta certa feita: “amor é pra quem tem culhões.”. Tais palavras são a mais pura realidade que visualizamos no dia a dia. Os relacionamentos hoje se tornam cada vez mais frustrantes porque não existe amor e sim um apego exacerbado, uma carência extrema. O vazio de si espera ser preenchido pela presença do outro sem nem perceber que pra te encher o outro terá que se esvaziar. O namoro é pautado em uma vida à dois sufocante em que o parceiro precisa anular a sua subjetividade, pois o outro não gosta. Saulo Fernandes nunca foi tão feliz em uma música como em Não Precisa Mudar e como diz a música é necessário adaptação ao gosto e ao jeito do alheio para assim conseguir ser dois sendo um. E adaptar não é se anular.
Talvez a mágica, a eureca dos relacionamentos seja esta: Amar-se mais que aos outros, ser você mesmo com toda a sua autenticidade e defeitos, e alguém querendo relacionar-se com você, que tenha “chulhões” para no lugar de te preencher, te transbordar.  

domingo, 13 de setembro de 2015

Acaso

Enquanto eu vejo a “minha” novela, você se vira para o lado da cama e lê Saramago. Enquanto eu leio os horóscopos nos sites de notícia, você tenta entender a má gestão do lixo nos municípios brasileiros. Enquanto eu “mato” um hambúrguer gigantesco para aplacar minha fome sem fim, você pede uma salada simples e me diz que come para sobreviver. Eu com minha rapidez e aceleração de sempre e você em sua calmaria caymminiana sem fim. Eu de humanas, você de exatas. Nada a ver. Tudo a ver.
Afinados, passamos horas discutindo arte impressionista enquanto ao fundo toca Calcanhotto. De longe, dois seres estranhos. De perto, duas criaturas que, mesmo sem ter muito a ver,  decidiram se unir, num desses abalos cósmicos da vida que eu chamaria de destino ou carma e você, humildemente chamaria de acaso. 

domingo, 23 de agosto de 2015

Surpresas

E se um dia o príncipe beijado virar sapo e o sapo ser o príncipe? E a sandália perdida doer no pé, o beijo não despertar o sono ou os cabelos serem curtos demais para se atirar de uma janela? E se tudo o que você achava que fazia sentido já não fizesse mais, e, ainda assim, isso lhe desse um alento sem fim? A vida tem dessas coisas. A gente investe alto em certas coisas e outras que eram esquecidas na gaveta é que dão certo. É uma clara resposta de Deus dizendo: - Eu sei o que você precisa pra ser feliz.

domingo, 16 de agosto de 2015

Por ser mulher...

Sou apartidário e há tempos incorporei às minhas ideias não votar em ninguém que apresente mais do mesmo. Hoje, entretanto, me inquieta ficar calado. Lembro-me que em 2010, os veículos de comunicação de massa saudavam, em um feminismo quase uníssono, a entrada da primeira mulher presidente do nosso país. Hoje passados quase cinco anos do seu governo (eleita e reeleita ano passado) percebo que os discursos daquela época era apenas euforia de momento. Hoje vemos latente a falta de respeito que se há com uma mulher, que independente das situações de corrupção crônica no Brasil, tenta aprender o serviço que lhe foi designada pelo povo, só que embaixo de xingamentos de uma população que ela representa, mas que não a respeita.
O que eu questiono e analiso nestas linhas é que somos ainda ligados a valores patriarcais arraigados, pairando no nosso inconsciente coletivo de maneira esdrúxula e vil. Uma mulher não serve para governar um país, ela tem que sair, uma mulher não dá conta dos serviços fora de casa, mulher foi feita pra lavar, passar, cozinhar e dar, fora disso qualquer erro é falta de competência em assumir um cargo que ela não tem culhões para enfrentar. Um homem nas mesmas condições não enfrentaria tamanho preconceito. Um homem nas mesmas condições não seria achincalhado. Por quê? Simplesmente porque ele é homem. Não é sobre não ser competente, é por ser mulher.
Nisso eu sinto certa pena da presidente, não em relação a sua situação política atual, não pela crise política ou pela situação econômica, e sim por ser uma mulher sendo massacrada por todos os lados sem nem o direito de usar a Maria da Penha em seu favor. Porque um tapa dói na carne já palavras doem na alma. 

domingo, 9 de agosto de 2015

Sobre o tempo, a paciência e as feridas da alma...

Aceleram-se as horas, os minutos, os segundos. Há urgência. Há pressa. O ritmo do relógio parece não conspirar ao nosso favor. Se tivéssemos 32 horas no dia, como em alguns planetas, não teríamos tempo (sic!) para cada um dos momentos cotidianos e ainda acharíamos havia algo a ser feito. Bem vindo à contemporaneidade ou era pós-moderna, ou ainda algum momento cibernético e científico da história da humanidade sem nomenclatura. Há urgências aqui e as coisas têm que ser para agora. 
O início e o fim tornaram cada vez mais próximos em nosso tempo, e em todas as instâncias. Em contrapartida de tudo isso, nossas feridas interiores não saram na mesma velocidade que os nossos desejos clamam. Seria fácil por um band-aid, tomar um analgésico e seguir pra próxima batalha, entretanto não funciona desta maneira. Elas precisam doer, elas precisam de paciência para serem fechadas naturalmente, sem nenhuma intervenção. Nossas dores precisam de tempo e tempo é tudo o que não temos. 

domingo, 2 de agosto de 2015

Padrões

Eu tenho que todos os dias dizer pra mim mesmo ao levantar que não tenho como te colocar nos meus padrões, e, assim, aceitar que somos duas pessoas distintas lutando para que algo bacana entre nós dê certo. Além disso, tenho que respeitar a sua individualidade, o que é SEU, e entender que somos um antes de ser dois. E isso é o difícil, porque nos ensinaram desde a mais tenra idade que deveríamos ser um só, como o princípio bíblico que diz “e se tornaram uma só carne, um só espírito”. Mas vejo que realidade nem sempre é assim. Eu gosto de viajar pelo mundo e você gosta de viajar vendo TV em casa. Eu gosto do blues, do jazz e do rock e você de qualquer coisa animada que lhe faça dançar. Eu discuto sobre astrologia, religião, política e economia e você quer apenas saber o que vai ter pra jantar ou se precisaremos ligar pra pedir a quarta pizza da semana.  Então, a única certeza é que mesmo tão díspares e opostos decidimos em algum momento nos amar e nos complementar mesmo que separados as nossas diferenças sejam cada vez mais acentuadas. Não é fácil (ninguém disse que seria), mas eu me sinto tão seu (mesmo sendo eu) em gênero, número e grau que nunca pensei que seria um dia. E assim, me vejo todos os dias reafirmando em voz alta, para que as palavras consigam ecoar no mundo (e em mim) que para amar a dois, é necessário que eu ame a um, a mim, e só assim posso entender e aceitar que não mudarei ninguém a não ser a mim mesmo. 

Deixe de ser trouxa, por favor?

Quanto tempo levará para que perceba que você é trouxa? Dois meses? Um ano? Uma vida inteira? Ok, my dear sem progressões ( i promise), mas não com mentiras. Pare de dizer eu te amo para o primeiro desconhecido que lhe apresenta todas as formas clichês de amor já batidas pela indústria hollywoodiana, porque a paixão é um drama francês que nunca acaba bem ou quando acaba é mais real que “o felizes para sempre” que nos iludiram desde a infância. Pare de achar que mudará alguém, que é questão de tempo, porque como diz a música temos nosso próprio tempo, mas esse tempo gasto em mudar alguém, que não mudará, é com certeza tempo perdido. Então concentre seus esforços em você, espere, confie, o cara certo não baterá na sua porta, mas pode esbarrar em ti em qualquer lugar esdrúxulo e logo em um momento em que você estará com cara de capivara atropelada, mas mesmo assim ele quererá conhecer-te. E ele não será um príncipe encantado num cavalo, nem o malhadão da academia, nem o cara que lhe recitará Vinicius na segunda conversa. Ele vai te beijar, transar com você de maneira enlouquecida, falar piadas ridículas de português e te fará sorrir, apenas.  Sim, ele vai ser de verdade em uma multidão de mentiras, mas é preciso que você deixe de ser uma adolescente retardada à espera de um marido de comercial de margarina. As pessoas são fodidas, neuróticas, malucas e isso é o melhor de tudo nelas. Deixe de ser trouxa, por favor. Não leve tanto tempo para ver que o mundo, mesmo sendo essa merda, pode ainda ser uma merda interessante.


Júlia Siqueira

Ao balconista

Bom dia, senhor
Quero lhe devolver os conselhos todos que comprei e não me adiantaram. Quero trocá-los por receita pronta, ou fórmula. Mando manipular. Mando buscar. Mando trazer. Dinheiro não me falta, isso não é problema. Apenas me dê um alívio para os meus desesperos. Preciso de algo para a dissolução imediata das minhas angústias. Qualquer coisa para a absolvição das culpas. Tem?! Vitamina para combater contradições e nós na garganta? Pomada para evitar sofrimentos antecipados? E para o durante e o depois, nada na prateleira? Comprimidos para não se engasgar com as mágoas, para digerir as perdas. Algum repelente contra os medos, será que aqui encontro? Um chá para diminuir exigências e ressentimentos. Um fortificante para os meus sonhos, um inibidor de ansiedades? Não precisa ser genérico. E para coração partido, acha que é caso sério? Devo procurar um especialista? 
Não, não quero nada para desaparecer senhor. Não acho que seria bom, sabe?
Sinto-me ausente de mim faz tempo demais...
Tudo bem. Eu aguardo o senhor ir ao estoque. Enquanto isso, distraio-me.
Como sempre faço.



Guilherme, do blog A ilha de um homem só

sábado, 18 de julho de 2015

Despeço-me

Despeço-me do que fostes pra mim um dia. Despeço-me das palavras ditas, dos planos feitos e dos beijos roubados. Despeço-me até das despedidas com toda a redundância. O talvez se tornou palavra constante entre os sins e os nãos e eu nunca gostei do morno, do meio termo, da possibilidade, do subjuntivo, preferindo sempre as certezas da vida do que suas dúvidas cruéis e cheias de possibilidades ruins. Então, despeço-me com o gosto de quero mais, tendo os sonhos na gaveta, passagens de ida na mão, o coração apertado, mesmo acreditando estar fazendo a coisa certa.


Júlia Siqueira

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Tinder

Não, não, não. Pensava enquanto ia deslizando o dedo pela foto, descartando aquele rosto sorridente pedindo “me leva com você”. Não conseguia encontrar aquele que fosse o rosto certo. Não por falta da dita beleza, havia rostos que o agradavam, mas sentia que naquela perfeição geométrica faltava alguma coisa. Nos dentes polidos. No cabelo bem penteado. Na camisa xadrez vermelha. Na barba ruiva farta. Nada daquilo era ele. E não sendo, não tocava no profundo abismo do coração. Raras vezes tocava o coração verde. Quando sentia naquele rosto uma coisa familiar, como quando a gente se topa conosco num espelho inesperado, mas eu existo mesmo? Tantas vezes já se perguntara. Então quando via esse rosto que era seu mais íntimo alheio, entrava no perfil, os gostos combinavam, tudo parecia certo, toda história já planejada dentro dos olhos brilhantes exasperados, querendo a qualquer custo fugir de si mesmo para se abrigar no cais do outro. Com o coração batendo e os dedos trêmulos clicava no bendito coração verde. Mas nada acontecia. Não dava a combinação. Ou ele já lhe descartara, quem descarta também é descartado, quem muito escolhe acaba escolhido, ou ele simplesmente ainda não passara pelo seu rosto também pedindo “me leva com você”, teria que esperar. O tempo que tudo sabe. Mas o tempo passava e nada acontecia, nunca. Então esquecia. Por vezes também, por obra de destino, apertava sem querer o coração verde em quem ele jamais quisera: e combinava. Olhava assustado. Mas se nunca quisera, porque agora que tinha de repente iria querer? Deveria aceitar só aquilo que fosse por acaso? Somente através do erro poder-se-ia viver? É tão mais fácil aceitar o erro e com ele embarcar. Pra depois naufragar e sofrer. Não, obrigado. Apertava o botão de descombinar e ficava assim mesmo: sem o certo e sem o errado. Sozinho. Tinha vezes também em que jurava que achara o amor de sua vida, a alma gêmea, e quando ia clicar no danado do coração verde piscava aquela informação maldita: sua cota terminou, compre o pacote ilimitado por tantos reais por mês: o amor era também capitalizável. Nunca pagava. Sentia que se pagasse estaria vendendo a si mesmo: prostituindo o seu rosto e comprando e dos outros. Queria que fosse assim: naquele espaço mínimo que era a cota gratuita por dia, naquela cota iria achar o rosto que lhe completaria. Mas não. Era sempre o X vermelho. Não. Não. Não. Não quero. É tão mais fácil repelir o que não nos é. Para que fiquemos sempre sendo aquilo que somos, pois nunca poderia ele se jogar no que era desconhecido? Quem não procura o escuro, jamais dá um passo adiante. Fica dançando na mesma marca de giz, preso na corda que só avança até certo raio: nunca será iluminado pelo relâmpago de Zeus. Bailando consigo mesmo, insistia em passar os rostos que o acusavam. Acusavam de quê? De ele ser ele. O que não era rosto compatível, era a prova – através do contraste – que ele existia, e que era diferente. Só queria encontrar o que fosse possível? Ah, tantos já amaram o impossível e morreram por ele: Romeu nunca morreria por uma aliada da família. Não é por qualquer Helena que se faz uma guerra. Mas isso ele não sabia, ou não queria saber. Não. Não. Não. Passavam os rostos, fragmentos de futuro: aquilo que poderia ter sido e não foi. Aquilo que se perde no vazio inominável, pra onde vão os dados? Olhou para aquele rosto um instante, quase cedeu. Não. Também passou. Do outro lado da cidade esse mesmo rosto disse sim ao destino cruel que era um coração verde batendo de esperança por nada.



segunda-feira, 13 de julho de 2015

Felicidade em silêncio

Damo-nos conta do quanto amadurecemos quando no lugar de alardear a nossa felicidade, preferimos ficar feliz em silêncio, para que ninguém coloque os olhos cheios de malícia e a nossa alegria seja transformada em qualquer coisa que não seja o que se sente. Sim, a melhor alegria se torna aquela que compartilhamos com alguém que entende o nosso riso e não com aqueles que tanto almejam tirá-los.

 12 de julho de 2015. 

domingo, 21 de junho de 2015

Não tá fácil!

Quando foi que ficamos tão imbecis de acreditar que são verídicas as notícias veiculadas em sites de humor? Quando foi que nos tornamos tão medíocres em viver pelo ter, em reclamar das pessoas por serem diferentes de nós e ainda maltratá-las por isso? Em que momento deixamos de evoluir e passamos a involuir, voltando à estaca zero, esquecendo de nos importar com o essencial e com o humano e nos preocupando com a forma que as pessoas vivem, colocando para estes parâmetros e moral que não nos encaixamos? Não tá fácil!

Antes e depois


Se voltássemos há um ano, talvez estivesse preocupada com as suas ligações ou a falta delas ou com o jeito que sempre me impunha viver. Talvez em algum dia de algum ano no passado eu estivesse temendo a solidão como uma barata que teme morrer pelo inseticida ou uma pisada de um pé raivoso, hoje, contudo, não mais. Não, eu não fiquei fria, nem muito menos deixei de me importar contigo e te amar, é que talvez agora eu tenha finalmente conseguido preencher minha vida com minha presença não mais precisando viver conforme os outros me direcionavam, nem precisando mendigar atenção alheia porque diferente de antes eu hoje consigo me ter como companhia, e uma muito boa por sinal. Por isso peço que não faça drama, eu estou bem. Eu não deixei de gostar de você, eu só aprendi a gostar mais de mim antes disso.

Júlia Siqueira 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Rasgando-me em preces

Coloco-te nos altares de minha alma apenas para venerar-te de maneira masoquista. És um demônio em forma de santa, mas mesmo assim lhe acendo velas, faço-te promessas, rogo-te por amor ou migalhas de bem querer. Minha veneração e devoção é feito a de um cão a seu dono, são anos de renúncia aos meus quereres para atender aos seus prontamente e assim faço sem nada lhe exigir em troca, por paixão em ver seus sorrisos desfilando violentamente para outro alguém, apenas pelo prazer de ver seus dentes em alinho saltando harmonicamente da sua boca. Meu amor é uma prece, sua gratidão não existe. Os deuses não ligam para os sofrimentos dos meros mortais, não serias tu deusa e santa, demônio e anjo, que seria a primeira a ligar para os meus. 

domingo, 17 de maio de 2015

Ainda não acabei de gostar de você

Já conto nos dedos, como presidiário que conta sua saída do cárcere, o infeliz dia em que tu deixarás de estar comigo. Já ouço o barulho do relógio batendo em compasso de despedida, a ausência do seu cheiro nos lençóis da cama, a falta de sua bagunça na cozinha. Tu vais, eu fico. Fico sem rumo, fico sem chão, fico sem você. Vais porque é melhor pra ti, mas não melhor pra mim. Sou egoísta porque lhe quero ao meu lado todos os dias dessa vida e das demais que possa lhe perseguir, entretanto não mando nas suas vontades e apenas pego as chaves da porta em minha mão esquerda enquanto lhe vejo passar o umbral desta pela última vez.  Não vá, peço quase que em sussurro, ainda não acabei de gostar de você. 

Contradições

Queria apenas gritar “te amo” com toda a força que há em meu peito, mas tem dias como hoje que contraditoriamente o meu amor é mais silêncio que estardalhaço. Às vezes quero arrumar minhas malas e fugir para um lugar no meio do nada, sem ninguém que incomode, sem barulhos ou ruídos externos, só eu e você, mas nestes dias de maneira controversa vejo que o calmo nada trará ou fará de bom. Há momentos em que quero você, outros que só a mim me basta.

sábado, 9 de maio de 2015

Você não entende nada.

Amor não é só carência, carência não é amor. Carência é quando você quer que alguém preencha o vazio que há em ti, este que te acompanha, mas isso não pode ser magicamente resolvido por outra pessoa, até porque é um problema seu honey. Você não entende nada, nada da vida, nada de mim, nada do amor. Ao contrário de me amar, tens cada dia mais me afastado a cada momento em que tento provar a ti, e fazer-te conhecer, como o amor funciona, assim do meu jeito não tão correto e nem sempre ético. Ah... o amor não tem ética. Não possui regras. Moral ele não conhece. Amar é fazer merda. Amar é viajar e ficar numa pocilga pra ver quem se ama. Amar é despir-se sem ao menos retirar uma peça de roupa. Isso que você diz que sente por mim é outra coisa, apego quem sabe. Mas como dizer que és apegado, quando ao invés de grudar em mim você usa um repelente fortíssimo em formas de nãos e talvez que me arremessa a quilômetros de distância?
Ah querido... você não entende nada, e não serei eu que perderei meu precioso tempo em te fazer aprender a entender.

Júlia Siqueira


quinta-feira, 7 de maio de 2015

A coragem de desistir.

O senso comum diz que quando a gente abre mão de algo é que somos fracos de tal maneira que não tivemos coragem suficiente de levar as coisas adiante. Abrir a mão e deixar que simplesmente as coisas criem uma vida e se libertem das amarras às quais muitas vezes as aprisionamos não é covardia e sim é um ato de amor. Entender que as coisas não me servem e assim dizer não é antes de tudo ter um amor sem fim por si e por aquilo que você deixa livre de seu contato. Quando eu decido abrir mão de algo, então, é que eu entendi que todo o sentimento que ainda havia (ou há) em mim, relacionado ao que outrora tanto me apeteceu e encheu os olhos, deveria se transformar em força de abnegação. Abri a gaiola, entreguei os pontos, te deixei na estação e ainda que eu lhe queira, eu te amo e me amo mais a ponto de deixar que vá. Isso não é fraqueza! Fraqueza seria se permanecesse  angustiado para mostrar aos outros que sou forte. 

domingo, 26 de abril de 2015

Só de você (Culpa da Rita Lee)

Será que a gente ainda será a velha história de um amor que acaba bem? Será que nós seremos/ teremos uma história? Não sei, mas não estou mais me contentando com esse ser e não ser shakespeariano que nós somos. Um momento, nós somos? Me diga! Será que vamos ser uma história? E esta vai ser de amor? E ela vai acabar bem?


Faxina

Era necessário limpar as gavetas do coração e tirar dali o que não funcionava mais, as declarações envelhecidas e guardadas, as angústias de momentos dos quais se quer esquecer, a dor entre uma alegria e outra. Era preciso fazer essa faxina nos lugares mais profundos da alma, esses que dizemos tão bem conhecer, mas que sempre nos reserva grande surpresas. Se faz importante tirar as coisas velhas, emperradas, empoeiradas, para que as novas cheguem até nós. Já viu que muitas vezes tem de se tirar roupas antigas do armário para poder caber as novas, porque então no coração haveria de ser diferente?

domingo, 12 de abril de 2015

Sobre viajar...

Dia desses, cansado do marasmo da cidade e de lugares comuns de gente igual, peguei minha mochila e peguei a estrada. Sim existia um rumo, sim existia uma conversa sobre onde ir, mas as passagens foram adquiridas horas antes de embarcar e a bolsa arrumada exatos 45 minutos antes de pegar o táxi para a rodoviária. Coisa de uma mente displicente que é a minha. O destino era Minas Gerais e a primeira parada Brasília. Ao chegar lá, parti para a papelaria comprar uma caderneta e uma caneta, a intenção era anotar números de telefone, uma vez que não gravo nenhum número na mente, mas acabou que se transformou num bloquinho de impressões. Ali eu anotava tudo. O mais divertido de viajar sozinho é que a viagem é uma descoberta particular, você não conhece ninguém, não sabe como as pessoas agirão a cada indagação, faz amizades de uma vida inteira em apenas 3 minutos e se vê ali contando a sua vida para um desconhecido.
Em Minas eu esqueci o meu carregador em uma cidade e fui para outra (eu sempre esqueço as coisas) e me vi em uma situação em que a tecnologia se tornou dispensável, o desconectar-se ainda que de maneira forçada me fez entender que muitas coisas nos escraviza e nos condiciona como essencial. O celular naquele momento não era, nem a sua câmera, afinal os registros mentais foram melhores e são tão meus que de maneira egoísta não quero dividir com ninguém.
Relembro que uma cartomante ao ler minha mão, disse que este ano eu viajaria bastante e que seria bom para mim. Após desconsiderar outrora, hoje entretanto eu só agradeço. É bom quando a viagem de conhecer lugares nos dá a oportunidade de conhecer melhor a nós mesmos. Desbravemos. 

domingo, 22 de março de 2015

A vida não está em uma caixa!

Nos últimos dias discute-se que a sociedade não está preparada para ver algumas coisas (cito o tão famoso beijo entre Fernanda Montenegro e Nathália Timberg na novela das oito). Digo e repito: a sociedade (nós) não está despreparada para ver certas coisas, na verdade estamos anestesiados e com preguiça de mostrar o que há lá fora para as nossas crianças e assim entender que a vida não é uma idealização dentro de princípios dos quais não utilizamos, mas reclamamos os direitos autorais.
Não é uma caixa animada que ensina ou influencia, somos nós. A televisão não ensina uma criança a beber ou a fumar, somos nós que influenciamos dentro de casa. Nem tampouco a televisão influencia a criança a ser má e mentirosa, são as ações conjuntas da sociedade que a levam a ser dessa forma. Exemplifico: uma criança vê o pai criticando uma mulher por se vestir de maneira "indecorosa" e dessa maneira se sentirá à vontade de fazer o mesmo, pois encontra apoio. As crianças não nascem preconceituosas, observe que elas não fazem distinção de amiguinhos, mesmo que estes façam parte de uma condição social e econômica diferente da que nasceram, isso elas aprendem isso com a gente.
Somos nós os espelhos de nossas casas, mas não é por isso e por outras coisas que devemos criar os nossos filhos em uma redoma. Não criamos ninguém para nós, nossos filhos não serão animais de estimação, presos em nossas gaiolas, eles criam asas e seu voo é orientado por nós, mesmo que eles tomem rumos contrários. Sendo assim, não critique a vida que ele escolheu mesmo que você não aceite, apenas respeite. O respeito de entender que mesmo você tendo dado a ele ferramentas para ele crescer e não sofrer, ele interpretou diferente de como você concebeu e vive conforme acha correto.
E ao discutir uma sociedade que você defende como correta, questione a si próprio: O que é correto pra mim? O que é socialmente aceito? A partir dessas discussões você entenderá que transgrede mais que qualquer um que beija alguém numa novela.

É preciso desbravar...

Lembro que estudei certa feita que nós homens migrávamos conforme a nossa necessidade. Enfrentávamos animais ferozes, eras glaciais e todas as vicissitudes do caminho a procura de alimento para nossa sobrevivência. Nos tornamos acomodados um pouco com  descoberta da agricultura mais adiante, é bem verdade, mas nunca perdemos essa vontade, que é tão nossa, de desbravar e ir além, além de nossas possibilidades e talvez do que achávamos ser possível. Atravessamos oceanos, nos metemos em meio a matas desconhecidas, conhecemos povos diferentes. O nosso espírito aventureiro, entretanto, foi morrendo a ponto de acabar. Não conseguimos ser além, ir além, transpor o nosso comodismo. Não conseguimos inverter as ordens geográficas e amar o longe e o desconhecido, porque o que é fácil é menos doloroso e talvez mais prático (e não é!), não conseguimos visitar um amigo que mora na mesma cidade usando inúmeras desculpas, sendo a mais usual a distância e falta de tempo. Retrocedemos. 
Por favor, se foi alguém, que não seja nós mesmos, roubou essa nossa capacidade de sermos diferentes, favor nos devolver com caráter de urgência. É preciso que voltemos a desbravar a nossa alma e nosso meio.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sobre a promessa...

Promessa é vontade que hoje seja amanhã também. Promessa é sonho incerto de acordar sonhando. Promessa é esperar semente nascer em qualquer terra.  Eu não quero que você prometa nada; quero que você seja agora, toda e inteira. Porque hoje eu estou; amanhã eu não sei. Hoje, eu vou; amanhã (quem sabe) não virei. E lhe conto tudo o que sei: que hoje sou, será, seremos. Amanhã, não sabemos. Hoje, ganhamos. Amanhã, outros planos. Por isso te quero agora, toda e inteira. Aqui a gente tem certeza. Acolá, é surpresa. Aqui, colheita das flores. Acolá, carrossel de amores. Por isso peço, fica agora. Porque os planos se fazem e se costuram por eles. Na casa se mora quando construo as paredes. Uma a uma, sem pretensão de mansão. Pintemos a esquina e depois traçamos cidade. Comamos do fruto pra descansar na pastagem. Curtamos entrada pra não querer ver saída. Bebamos agora o inteiro da vida. Porque promessa é parcelar felicidade. E eu a quero toda e inteira. Cuidemos juntos da flor e depois herdaremos jardim. Porque promessa é somente sobremesa, distante degrau. E hoje é se servir pleno do prato principal. E no menu, encontros sem desencontros, perfume, clareza, encantos. Promessa é ponte de papel pela qual quero percorrer. E prometo hoje meu Amor, que pra ti nunca mais vou prometer.

Guilherme Antunes, A ilha de um homem só

As lembranças do que não vivi.

Não lembro uma vez de ter ido à praia apenas para molhar os pés ou ficar observando o quebrar das ondas como espectador passivo daquele fenômeno. Nunca gostei de ser coadjuvante. Eu corria para a água, sentia as ondas espancarem meu corpo, o sal cortar meus lábios e a demora em permanecer ali enrugar meus dedos das mãos. Não era ali uma paisagem solitária e sim eu como participante daquilo tudo. No viver não é diferente. Desaprendi desde o nascer a ser raso, a ser mais um, a ser o cara não notado na mesa do restaurante. Às vezes passar despercebido é bom, mas não como regra. No trabalho eu nado, pego carona nas ondas, jogo pra cima com as mãos litros de água. No amor mergulho, me entrego, me afogo, me salvo. Logo, não entendo quem vive de carona, de observar apenas, de não ser.
Não lembro de ter entrado em alguma coisa com o objetivo de desistir, sempre pensava nos louros da glória final e no êxtase de cruzar a linha de chegada. Claro, inconscientemente não fomos preparados para perder e nem muito menos para fazer o nada por nada, muito menos eu me propunha começar alguma coisa para abandonar logo de primeira. Nunca funcionou isso pra mim. Essas minhas lembranças de não ter sido, só me fazem pensar que a vida é mais que desenhar nomes na areia que a são facilmente apagados e sim construir castelo, que mesmo destruídos, serão lembrados por mais tempo.

domingo, 1 de março de 2015

Questões filosóficas

Nem tudo na vida depende de amores ou gravita em torno deles. Sim todos, assim como na alegoria platônica, procuramos a nossa alma gêmea e blá blá blá, mas eu me pergunto, e se ela não nasceu, ou melhor, e se ela anda encontrando em outro aquilo que deveria encontrar em mim? Vivo nessa busca incessante em encontrar no outra a felicidade que é minha meta ou tento ser feliz com o que tenho? Nestas questões filosóficas, Socrátes bem diria a sua famigerada frase “só sei que nada sei”, e eu... eu concordaria com ele plenamente. 

O amor é imprevisível.


Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.
Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?
Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retratos e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.
O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.
O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.
A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir “eu te amo” num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir “eu te amo” numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.


Martha Medeiros

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Promessas


Um dia, com uma música antiga de Leoni, eu lhe disse que esperaria todas as tempestades de sua vida atribulada passar e que quando você descobrisse o que queria eu ali estaria, dizendo não para o que acreditei até o exato momento, no tocante de cumprir a promessa feita outrora. Passado tantos anos me pego refazendo sozinho os mesmos votos, esperando que em um momento qualquer os nossos olhos voltem a se querer, as nossas frases voltem a se completar, as músicas passem a ser nossas e não de seus respectivos artistas. Sim, eu ainda acredito em nós. Acredito em nossa predestinação espiritual de estar juntos pelas vidas que existirão depois dessa, e eu digo novamente, eu espero. O amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Desistir dos olhos

O amor acaba quando poesia desiste dos olhos. O amor se despede quando janela se torna janela apenas e as estrelas, pontos no céu; quando sonhar se faz tão-somente intervalo entre os dias. O amor acaba pela reincidente aridez de dentro, por laço que endurece, espinho que cativas, ferida que cultivas, distâncias que nascem entre nós e a vida, entre nós e o outro. E o que dizer do amor que jamais morreu por não ter fim, mas que hoje deixou de ser? Qual linha, palavra ou ausência traça o limite entre o que éramos do que não mais seremos? Talvez o amor só deixe de ser por nunca ter sido o que havia de se tornar: amor. A poesia acaba quando amor desiste dos olhos.
 
Guilherme, A ilha de um homem só

I'm a bitch.


“Não existe um ruim sem defeito e nem um bom sem qualidade”. Começo aqui minhas palavras (ordem da minha terapeuta) com esse dito popular, a partir de conclusões experimentadas na pele. Conheci um cara ontem na balada via Tinder, aquele maravilhoso mecanismo que diminuiu nossas erradas investidas e os foras olho no olho que tanto nos atormentavam a alma. Sim caro amigo papel, a vida é movida por três palavras ultimamente: homens (ou mulheres), álcool e trabalho, logo eu me encontrava atrás de um homem, pois estava bêbada, após viver mais um dia de merda no trabalho, no qual resolvi esquecer recorrendo ao álcool. 
Agruras a parte, o fulano em questão, que nem sei o nome, mas conheci outras coisas muito mais interessantes, chegou e o seu perfume entranhou as minhas narinas de forma a mexer comigo sexualmente, claro, ele exalava testosterona e eu uma série de hormônios casados à minha carência e a saudade que a minha genitália sentia de uma festa por ali. Conversamos uma série de coisas banais, alta do dólar, crise internacional do petróleo, pessoas e suas futilidades e blá blá blá, que já me sentia “o amigão”, aquela garota linda que o cara não tem coragem de ficar, nem pra uma caridade. Precisava de minha caridade aquele dia. Ele seria o caridoso. Eu sabia.
Dançamos, bebi mais algumas vodcas, e entre uma dança e outra o beijei. Me vi ali beijando um cara desconhecido até então e já estava com tanta vontade (sim, o beijo era mais que bom) que eu acho que todos ali ao nosso redor deveriam aplaudir. Um sussurro em meio ao som dizia: - Vamos pra um lugar mais calmo! Lugar mais calmo é a senha para vamos transar e eu despudorada fui, transei, perdi a conta das vezes. Aí hoje trançando todos os planos da minha futura vida com o meu namorado novo (casada, dois filhos, um bull terrier e um casal de calopsitas em uma mansão nos Jardins), descubro que ele tinha transado com minha amiga um dia antes e que ele falava pelo o Tinder com uma bruaca do meu trabalho há duas semanas. Merda, merda, merda. Não existe um ruim sem defeito e nem um bom sem qualidade, diz o ditado lá em cima. O ruim é que o sexo bom e o beijo incrível vêm de um cara que mentalmente julgo que não presta, embora não ligue de repetir a dose dos meus 50 tons de cinza. Querido Christian Grey brasileiro, quero de novo, guardei um pouco do seu perfume embaixo de minhas unhas e tenho que devolver. I’m bitch!
 
Júlia Siqueira

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Felizes para sempre?


Acontece que fomos condicionados, desde a mais tenra idade, a buscar o feliz para sempre das fábulas infantis, naquele universo surreal em que patinho feio era um incompreendido cisne, as princesas e heróis tinham suas vidas facilmente resolvidas pelos laços de amor que os unia, amor este que por muitas vezes era à primeira vista e que se selava rapidamente com um casamento e filhos, como uma receita simples e rápida para a felicidade, entretanto esse mundo não existe e a fábula não consegue encontrar respaldo na realidade. É aí que vagamos na floresta encantada de prédios cinzentos e gente distraída, procurando alguém que complete as nossas frases e atenda os nossos desejos. Infelizmente, esse alguém não existe.
Não existem pessoas prontas, no mundo não há bons ou maus, nesse maniqueísmo fuleiro que a mídia tenta vender, encontramos pessoas que nos satisfazem aqui e ali ou completamente devido a alguns poucos ajustes. O problema é que não gostamos ou não temos paciência para as adequações. Ajustar gostos e afinidades? Jamais. O produto tem que vir em ótimas condições e atender os desejos do cliente e em caso de defeito devolve-se à fábrica na certeza de reembolso ou troca imediata. E o felizes pra sempre lá dos livros, lá do nosso inconsciente, ganha uma interrogação quando se deveria haver um ponto final, afinal a infantilidade de algumas fábulas, em nossas vidas, fez morada.  

domingo, 25 de janeiro de 2015

E isso apenas bastava.

Lembro-me dos gritos de minha mãe. Lembro-me do cuidado excessivo de minha avó. Lembro as raivas silenciosas de meu avô. Dado um momento, achava que aqueles excessos impediam-me a liberdade e a vontade de crescer. Lembro-me das incontáveis noites mal dormidas de minha mãe esperando-me chegar da faculdade, fora as tantas noites nas quais minha avó, entre Ave Marias cochiladas, me aguardava chegar de alguma festa. Recordo ainda de tantas vezes que me reprimiam de maneira enérgica em uma cena épica e digna de ter sido exibida em qualquer novela do Manoel Carlos. E tudo isso hoje me basta. Me basta para entender que o amor às vezes é chocante, é cuidadoso, que o amor adora advertir, reclamar, cuidar.
Hoje me satisfaz saber que eles davam seu amor sem saber como dar. Amava-me apenas. E isso é o bastante para entendê-los.

Lembrem das crianças de Gaza

Minha infância foi roubada por uma bomba "amiga". Nasci entre corpos mutilados e pessoas ensanguentadas ali naquela guerra que eu não sabia a razão de existir. Chorei alto para que o meu choro suplantasse os bombardeios na casa de meus avós como se prenunciasse a nossa despedida quando deveria ser o nosso primeiro contato. Corria com medo pelas ruas desertas. Era refugiado, sem pátria, sem um lar para chamar de meu. Um dia morávamos nos arredores de Rafah em outro não sabia pronunciar o lugar pra onde ia. Não tive amigos, porque não tive raízes, não tinha com quem brincar, pois minha mãe pouco deixava sair. Perguntava a ela o porquê de tantos tanques na fronteira, certa vez, e ela disse que eram vigias a nos espreitar. E o que fizemos de errado? – questionava. E ela, olhos marcados pela dor e conformidade de quem também entendia pouco de tudo isso, apenas sussurrou entre dentes: - Nascemos aqui. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O bilhete que ia pro lixo.

Não é necessário que eu repita a todo instante que eu te amo, como despertador de assalariado que tem que acordar cedo na segunda para trabalhar de ressaca e a droga do objeto não para de apitar ao lado da cama. Isso é muito chato, é cansativo, não cabe mais na nossa idade e nem nos sulcos das nossas testas. Você sabe, eu sei, todos os outros do universo também já sabem, mas parece que você precisa de um evento cósmico, um abalo sísmico, uma estrela cadente, um feitiço celta ou a atenção de um Maracanã inteiro para que o que nós sentimos se efetive em um grande momento. Com todo esse episódio eu dormi duas vezes, cochilei outras tantas, enquanto meus dedos automaticamente desenhavam as letras no papel em que me ponho a escrever essa direta pra você. Acho que pra economizar palavras rasgarei isso aqui e colocarei um selo velho da época da ditadura, com os dizeres, AME-O OU DEIXE-O. No nosso caso, falo de mim mesmo, me ame ou me deixe, mesmo preferindo que você me ame e acabe com essa besteira toda. Obrigada.

Júlia Siqueira

Indiferença

Se o ano novo que nem um caminhão de mudanças me trouxe alguma coisa ou um sentimento foi o da indiferença. Envelheci mais um ano (merda!) e sinto que um passarinho passando e uma bomba atômica explodindo ao meu lado ou um vulcão em atividade a poucos metros de mim são coisas quase que semelhantes. Desaprendi. Na verdade neste texto de início de ano vamos falar de duas coisas, primeiro da indiferença, e, segundo, do quão bom é desaprender certas coisas (e ainda saber fazê-las caso necessário).
Desaprendi a me assustar ou fazer qualquer alarde diante de uma situação ou algo, dramatizar (ainda que momentaneamente) coisas banais que ficariam bem como mote de uma telenovela ruim, mas que na vida real não dá um ponto na audiência. E talvez no fato de ter desaprendido essas coisas eu tenha, ainda que magicamente, me tornado indiferente. Vejam como as coisas se complementam. E é bom. É bom não ligar, viver desencanado das coisas a ponto de perdoar e esquecer no automático e gritar ainda que em silêncio que você consegue estar desapegado e dormir com a consciência tranquila de quem limpou o nome do SERASA e pode retirar o tão sonhado carro do ano que estava em restrição.
 Acho que esse ano e uma crise pessoal e existencial dos vinte e poucos estão me fazendo refletir que a vida não é o drama teen norte-americano. A vida é uma coisa boa degustando uma taça cara de estou me lixando pra tudo isso.