domingo, 23 de novembro de 2014

Maria

Maria tinha os olhos mais cheios de vida que um dia eu vi em alguém, mesmo que a vida estivesse se esvaindo pelos seus dedos enrugados. Era uma idosa simpática na casa de seus oitenta anos, que sentava-se todos os dias na porta de sua casa e ficava vendo a vida passar como ela gostava de dizer.
Certa vez no alto da minha imaturidade disse a ela que viver não é algo que se passa diante dos olhos e sim algo mais forte, mais empolgante do que se sentar e observar o canto dos pássaros ou os carros que iam e vinham. E ela com aquele sorriso já incompleto de dentes, mas sincero como nenhum outro me respondeu: - Meu filho, vai chegar o dia em que suas pernas não serão mais ágeis para correr e nem sua boca tão rápida para falar, tudo vai se desacelerar e verás que observar a vida é uma das últimas alternativas para quem ainda quer viver. Hoje você não tem metade do prazer que tenho na minha calmaria, mas quando tiver na minha idade irá desejar ter tido uma vida menos agitada, e entenderás que estou certa.
Não esperava aquele tapa em forma de palavras e perguntei para a solitária para senhora: - E por que acha que está tão certa assim? E ela sem hesitar: - Vejo tanta gente com gana de ganhar mais para dar uma vida confortável para os filhos e os deixando sem carinho, faltando neles o correr descompromissadamente na praça e o brincar na areia de fazer cidades imaginárias. Vejo gente perder a saúde na falta de parar um pouco e olhar para a lua quando está cheia e lotando clínicas e deixando médicos doentes com suas doenças. Vejo famílias de finais de semanas que se reúnem para mostrar pros outros o que se tem, mas não se mostram para si próprios o que possuem. Eu andei na contramão disso tudo e hoje me sento aqui com a consciência de quem sempre tentou fazer o melhor.
Calei-me. Somos nada diante da maturidade de olhos que muito viram e de mãos que muito fizeram. Como o ditado que diz que os velhos dão bons conselhos, pois passaram da idade de darem maus exemplos. 

sábado, 8 de novembro de 2014

Eles somos nós

Ele chega na balada com uma camisa Hollister ajustada ao corpo de forma que os músculos quase rasguem o tecido evidenciando as horas que dispensa no cuidado ao seu corpo. O tênis impecavelmente branco da Adidas, parece recém saído da loja e o relógio e corrente de ouro no pescoço coroam o seu look pegador-narcisista-rico-ostentação. Ele saiu de casa hoje, tendo por objetivo beber uma vodca Absolut ou um 12 anos bem caro, numa festa de sertanejo universitário com os amigos e de quebra pegar umas novinhas para uns amassos gostosos, no fim da festa, dentro da Land Rover que ganhou de seu pai de aniversário.
A novinha premiada da noite do nosso “herói” é aquela mais risonha no grupinho de mulheres que estão sentadas junto ao balcão do bar tirando fotos com seus IPhones, para mais tarde postarem no Instagram. Ela é deslumbrante, loira como manda a moda, vestida com um top cropped e uma saia curta de modo a mostrar a sua barriga negativa e suas coxas definidas fruto de horas de malhação, pilates, corrida e uma infinidade de exercícios físicos e dietas prescritas.
Já na terceira dose de tequila dela, ele convida ela para dançar... uma, duas, dez músicas... dois, seis, vinte beijos quentes... cinco, seis vodcas a mais. Ele chama ela para saírem dali e ir para o flat dele na área nobre da cidade. Ela vai, eles transam, ele admira sua performance de macho alfa pelo espelho preso à parede próximo a sua cama. Eles dormem. Ela adormece acreditando que encontrou o cara que pode bancar seus luxos. Ele dorme torcendo para que ela acorde antes dele e saia de sua casa deixando apenas um bilhete na geladeira e não volte a ligar. Eles são descartáveis. Eles vivem o que possuem. Eles nada são. Eles somos nós.