domingo, 28 de setembro de 2014

Cama

descansa teu mundo entre os lençóis.
minha mão nos teus cabelos dão-te início ao sono que te vigio 
e aos sonhos em que te aguardo.
nos teus silêncios de alma desnuda costuro intenções.
conto os desejos de atravessar calendários contigo,
sendo teu nome a prece a me guardar nas noites 
e dar-me sempre os dias.
para o lado de cá das cortinas, 
a vida me acontece no teu poema de olhos fechados, 
no intervalo deste nosso descanso, 
antes de recomeçarmos...

Guilherme, do blog a Ilha de um homem só

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Podres poderes

Você que tem horror a política, que espera que saia de alguma catacumba o nosso ilustre Salvador da Pátria, que tem nojo das últimas gestões em todo o país, que odeia Dilma porque ela foi presa por ser uma guerrilheira na ditadura militar, que não confia no discurso volúvel da Marina ou que acha Aécio um governante para as elites, esse texto é pra você. Sim estou falando pra você cidadão ilibado, que cumpre com todas as suas funções sociais e que acha que honra o seu país com o seu discurso vazio de mudança, de mudança estática, de revolução de Facebook e de sofá.
Você, que acha terrível os milhões desviados dos cofres públicos todos os dias, proferindo amplos discursos inflamados contra essa corja que rouba os cidadãos de bens, mas que acha normal receber um troco errado, caso ele seja para mais obviamente. Você que acha uma situação terrível o que aquela estudante fez com o jogador do Grêmio ao ponto de solicitar uma nova legislação contra o racismo, mas não quer que sua filha case com um negro, nem que seu filho 'dê pra viado'. A revolução tem que acontecer, desde que ela não comece em seu santuário particular.
Voltemos às suas convicções políticas. Vejo os seus inúmeros pedidos nas redes sociais de que os militares voltem ao governo, esquecendo-se de sua infância de merda tendo que escolher o que comer, pois a inflação corroía os salários de seus pais. Hoje, posa de rico, com filhos na faculdade com bolsas do governo, casa financiada, além de um belo carro na garagem que comprou quando o IPI reduziu. Hipócrita. Vejo você reclamar ainda que o seu emprego é ruim, que não é valorizado, que os governos nunca valorizaram a sua área de atuação, mas nunca você se valorizou como profissional, uma vez que quase que mensalmente apresenta atestados médicos falsos de doenças que nunca teve, só para matar trabalho.
Tem tantas outras coisas que poderia falar de ti, como por exemplo quando come sua esposa imaginando a colega de serviço, como trai os seus filhos lhe dando presentes banais no lugar de atenção, como adora furar uma fila de banco, como gosta de estacionar em vaga de idoso e deficiente e como és medíocre e mentiroso, mesmo sustentando a fala de grande cidadão honroso que tem ojeriza do errado. Piadista.
Então, mesmo vendo todos esses seus defeitos, eu diria, você, é você, não presta nem para governar sua casa, não imagino que você seja capaz de atribuir algum juízo de valor a esses candidatos que aí estão. Analise-se ou cale-se. Seu melhor voto é o silêncio. 

Vida que segue

Eu te vi correndo hoje no parque, sabia? Corria com aquele olhar distraído e esquecido que tão bem te caracteriza. E sabe o que senti? Nada. Nadinha. Foi mais um transeunte como tantos que passavam em meu caminho matinal, entretanto o que os diferenciava de você, era que a ti eu conhecia bem. Ou pelo menos achei que um dia conheci.
Nossa, lembrei que estava disposta a desprender o tanto de amor que há em mim e te dar, mas você preferiu encontrar nos braços alheios os acalentos meus. Sei, que não ganhou o que queria, que fica de mimimi atualmente rindo da sua desgraça causada por você mesmo, quando  na verdade poderias ganhar vários hahaha, das cócegas que eu em ti fazia enquanto assistia uma besteira qualquer na TV. Talvez hoje não te culpe mais, não me pergunte mais o que tinha de errado em mim. Hoje, não sinto mais nada mesmo, talvez apenas pena, pena de não ter dado certo comigo, um alguém que possivelmente dividiria o céu em várias vezes sem juros pra te dar de presente e ter se frustrado com sei lá quem que nem uma pedra de asfalto lhe prometeu.
Vida que segue...

Júlia Siqueira

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Completude



Quando o telefone toca, minhas mãos suam, como se elas inconscientemente já sentissem o calor que vem ao meu coração quando sei que é você chamando do outro lado da linha.
Quando seus olhos pousam nos meus e eu disfarço com um sorriso de canto de boca, são os meus órgãos dos sentidos mandando sinais para o meu cérebro e coordenando minhas emoções de maneira tão perfeita, no tocante de indicar que você me bagunça de tal forma, que consegue apenas com o olhar me despir por inteiro.
Quando você está perto de mim, tenho a certeza de que somos um só. Dois seres distintos, fazendo morada em um lugar só e em dois ao mesmo tempo. Bem e mal, amor e ódio, calmaria e tempestade, fogo e gasolina, yin e yang, eu e você.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Amor, poeira e cicatriz

Eu era daqueles que defendia com unhas e dentes que o amor deveria se transformar em alguma coisa depois que acabasse, porque ele continuava latente, doendo pelo término, martelando em lembranças o que se queria esquecer. Mas o tempo, ah o tempo, ele tem as respostas que queremos e ansiamos e embora ele pareça rápido por vezes e em outras, lento demais, ele perpassa por nós de maneira única. Como um médico ele limpa as feridas, faz as suturas com precisão, e para tanto, age com morosidade, para que as coisas sejam finalizadas da maneira precisa e a dor não volte mais. O amor se transforma em algo quando acaba, cicatriza para ser apenas lembrança. 

sábado, 6 de setembro de 2014

Sempre fui aquele...

Sempre fui aquele que escreve as cartas de amor mesmo sabendo que nunca as endereçaria a ninguém e que utilizava o escuro da noite e a lanterna do celular para escrevê-las e depois de um tempo as esquecia dentro de livros que nunca leria.
Sempre fui aquele que não sabe distinguir amizade colorida de paixão avassaladora, que não fragmenta o coração em compartimentos com funções específicas e gerenciadores rígidos. Fui aquele que confundiu um beijo com amor, o sexo com paixão e a amizade com devotamento.
Entretanto, sempre fui o que sentia, o que se entregava de corpo e alma sem pensar em qualquer circunstância ou calcular qualquer trajetória oriunda da minha entrega. Sempre fui o que viveu mais e consequentemente o que mais sofreu.

Pensar demais

De todas as lições de vida do mundo a que mais custo a aprender é aquela que dá conta de que as pessoas são reflexo de suas vivências particulares e não se pode exigir de alguém aquilo que ela não tem a oferecer. E isso me faz sofrer. Primeiro, porque tenho essa mania, quase que psicopata, de querer que os outros não façam coisas que abomino. Mas elas fazem.
E esse não querer, perpassa por outro defeito (sim, defeito!) de superproteger quem eu gosto. E isso me leva a desgostar, faz com que as pessoas comecem a morrer em doses homeopáticas dentro de mim. E vejo que sou egoísta, porque não quero pessoas que vivam e sim sejam um reflexo dos meus anseios, que por hora não são atendidos. Mas aí paro para pensar se todas as minhas atitudes são coerentes com o modo de vivência do outro e percebo que refletir e ponderar demais sempre nos leva a enxergar que somos apenas imbecis querendo a todo custo acertar da maneira errada. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

É hora de se desligar.

Há algumas semanas atrás, em uma reunião, eu escrevi alguma coisa na minha agenda sobre o medo que eu tinha de que as novas gerações perdessem o tato pras coisas rotineiras por conta do acúmulo de tecnologias e o uso das mesmas na educação.
 Lembro que existia algum slogan por aí que falava “que a tecnologia aproxima” e outro que dizia que a tecnologia “facilitaria a nossa vida”. Realmente, ela facilita, mas distancia. Distancia-nos de nossas vivências reais, do ouvir a voz de alguém, de sentir a vibração das reações e mudanças de tonalidade da voz, de visualizar a expressões faciais, de perceber o riso frouxo ou a vergonha estampada. Impede-nos de interpretar outras leituras que não sejam aquelas na tela do computador ou no celular. E percebemos que estamos, contraditoriamente, mais rodeados de “amigos” e vazios de presenças.
 Vejo pessoas sendo vendidas em cardápio virtual, em que o prato principal são elas próprias, mudando a apresentação do prato conforme o gosto do freguês, até o ponto de não saberem quem são. Outras, com medo de socializar com um estranho no ônibus porque a conversa no aplicativo é sempre mais interessante ou não consegue sustentar uma conversa com os amigos num barzinho depois de uma semana cansativa, pois tem que checar religiosamente o celular em busca de uma nova foto ou mensagem.
Não me excluo totalmente de tudo que disse acima, apenas tenho mais medo. Temo agora, não pelas gerações que virão depois de nós, mas sim nós mesmos que andamos esquecendo como viver fora do virtual.