quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Caminhos distintos

Eu não sabia o que era me apaixonar de verdade até o dia em que nossos caminhos se entrelaçaram. Sempre acreditei que amor era algo reservado aos livros de uma época distante da literatura e que atualmente era algo tão démodé quanto clichê. Amar a ponto de dar a vida? Pobre Julieta. Amar a ponto de aceitar uma traição. Pobre Jorge... Basílio e Luísa são mesmo uns vermes – pensava.
Foi aí em meio aos meus dramas literários que te encontrei e vi que tudo isso era possível. Meus órgãos, minhas células pareciam criar olhos, ouvidos e outros tantos sentidos novos para poder sentir o calor que vinha de você. Minha alma era de reencontro, como se estivéssemos predestinados desde antes dessa vida a nos encontrarmos nessa. Era tudo tão sincrônico e perfeito que máquina alguma projetada por ser humano algum era capaz de mensurar, quantificar, qualificar o que existia ali. Porém, os finais felizes se reservam para as últimas páginas dos livros e no meio tem sempre algo para separar, atrapalhar, interromper aquilo que é extremamente bom. Conosco não foi diferente.
Tomamos no meio da estrada caminhos diferentes. Cada um pro seu canto e Deus olhando por nós. Hoje, contudo, Ele fez a graça de nos juntar numa reunião qualquer dessas de trabalho, mesmo tendo profissões distintas. Dessas loucuras da vida que são incompreensíveis a qualquer pessoa. Os olhos iguais quando pousaram nos meus, fizeram meu sangue ferver e minhas faces rubrarem como em ebulição. Você sorriu, eu ganhei o meu dia. Lembro que uma vez ouvi de um senhor, já de idade, que o que é seu sempre acha um meio de chegar até você, como o rio que contorna situações difíceis para beijar o mar. Que eu seja o rio e que nossas bocas se encontrem num prenúncio de um final feliz. 

domingo, 23 de novembro de 2014

Maria

Maria tinha os olhos mais cheios de vida que um dia eu vi em alguém, mesmo que a vida estivesse se esvaindo pelos seus dedos enrugados. Era uma idosa simpática na casa de seus oitenta anos, que sentava-se todos os dias na porta de sua casa e ficava vendo a vida passar como ela gostava de dizer.
Certa vez no alto da minha imaturidade disse a ela que viver não é algo que se passa diante dos olhos e sim algo mais forte, mais empolgante do que se sentar e observar o canto dos pássaros ou os carros que iam e vinham. E ela com aquele sorriso já incompleto de dentes, mas sincero como nenhum outro me respondeu: - Meu filho, vai chegar o dia em que suas pernas não serão mais ágeis para correr e nem sua boca tão rápida para falar, tudo vai se desacelerar e verás que observar a vida é uma das últimas alternativas para quem ainda quer viver. Hoje você não tem metade do prazer que tenho na minha calmaria, mas quando tiver na minha idade irá desejar ter tido uma vida menos agitada, e entenderás que estou certa.
Não esperava aquele tapa em forma de palavras e perguntei para a solitária para senhora: - E por que acha que está tão certa assim? E ela sem hesitar: - Vejo tanta gente com gana de ganhar mais para dar uma vida confortável para os filhos e os deixando sem carinho, faltando neles o correr descompromissadamente na praça e o brincar na areia de fazer cidades imaginárias. Vejo gente perder a saúde na falta de parar um pouco e olhar para a lua quando está cheia e lotando clínicas e deixando médicos doentes com suas doenças. Vejo famílias de finais de semanas que se reúnem para mostrar pros outros o que se tem, mas não se mostram para si próprios o que possuem. Eu andei na contramão disso tudo e hoje me sento aqui com a consciência de quem sempre tentou fazer o melhor.
Calei-me. Somos nada diante da maturidade de olhos que muito viram e de mãos que muito fizeram. Como o ditado que diz que os velhos dão bons conselhos, pois passaram da idade de darem maus exemplos. 

sábado, 8 de novembro de 2014

Eles somos nós

Ele chega na balada com uma camisa Hollister ajustada ao corpo de forma que os músculos quase rasguem o tecido evidenciando as horas que dispensa no cuidado ao seu corpo. O tênis impecavelmente branco da Adidas, parece recém saído da loja e o relógio e corrente de ouro no pescoço coroam o seu look pegador-narcisista-rico-ostentação. Ele saiu de casa hoje, tendo por objetivo beber uma vodca Absolut ou um 12 anos bem caro, numa festa de sertanejo universitário com os amigos e de quebra pegar umas novinhas para uns amassos gostosos, no fim da festa, dentro da Land Rover que ganhou de seu pai de aniversário.
A novinha premiada da noite do nosso “herói” é aquela mais risonha no grupinho de mulheres que estão sentadas junto ao balcão do bar tirando fotos com seus IPhones, para mais tarde postarem no Instagram. Ela é deslumbrante, loira como manda a moda, vestida com um top cropped e uma saia curta de modo a mostrar a sua barriga negativa e suas coxas definidas fruto de horas de malhação, pilates, corrida e uma infinidade de exercícios físicos e dietas prescritas.
Já na terceira dose de tequila dela, ele convida ela para dançar... uma, duas, dez músicas... dois, seis, vinte beijos quentes... cinco, seis vodcas a mais. Ele chama ela para saírem dali e ir para o flat dele na área nobre da cidade. Ela vai, eles transam, ele admira sua performance de macho alfa pelo espelho preso à parede próximo a sua cama. Eles dormem. Ela adormece acreditando que encontrou o cara que pode bancar seus luxos. Ele dorme torcendo para que ela acorde antes dele e saia de sua casa deixando apenas um bilhete na geladeira e não volte a ligar. Eles são descartáveis. Eles vivem o que possuem. Eles nada são. Eles somos nós. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Amor? Como vive? O que come?

Ah! O amor.
O amor é um verbete como outro qualquer no dicionário, uma desculpa para se vender flores ridículas ou para se comer alguém quando bate aquela carência. É uma invenção. Não existe. Morreu. Findou-se. Existiu? Na verdade, aquilo que se chama amor e que daria uma comédia romântica duvidosa e de bilheteria sem expressão nada mais é que fantasia ou apenas pretextos pouco plausíveis para se ter a companhia de alguém, caracterizado pela carência afetiva. Em outras palavras, amor é falta de trabalhar duro, falta de leitura, falta de oração, falta de exercício, falta de porrada.
O amor, se é que ele existe mesmo, mata. Mata minha vontade de ser eu para pensar em ser de alguém. Desisto! Mesmo que a vida não esteja lá essas coisas, prefiro continuar vivendo e ao meu modo. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Eu

          
          Sim, eu decoro poemas pra te dizer. Eu acordo no meio da noite pra velar seu sono. Eu ouço canções pra lembrar de você. Eu cruzo os nossos signos, nossos mapas astrais, observo supernovas, constelações, cometas, tentando achar uma razão cósmica pra essa ligação. Eu vou em sessões de regressão para encontrar você em um cavalo branco correndo na relva de uma cidade medieval ou como revolucionária contemporânea. Os olhos são os mesmos, olhos de Capitu, de ressaca, que pousa em mim e me destrói pra me construir ao seu modo e do jeito que bem quer.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Abaixo às promessas não cumpridas!

Eu já havia jurado, feito promessa para a Virgem Maria, São José, os arcanjos e outros santos que não mais iria me apaixonar com uma conversa boba e um sorriso de canto de boca. Eu tinha, inclusive, escrito na minha caderneta de telefones, que fica no criado mudo perto da minha cama, inúmeras vezes e em letras maiúsculas o seguinte mantra: NÃO DEVO ME APAIXONAR E/ OU ME ENCANTAR FACILMENTE POR ALGUÉM, como criança de fundamental que precisa internalizar as regras da escola, eu tentava lembrar de meus próprios juramentos, mas não conseguia.
Sabe aquela velha história de que promessas, às vezes, são feitas para não serem cumpridas. Eu sou a prova ambulante deste adágio popular. Eu simplesmente não consegui sustentar em mim o juramento outrora feito e me deixei levar pelo sorriso de canto de boca e a conversa desenrolada e sincera. E fiquei ali, absorta, rindo das covinhas no rosto quando ele sorria, dos pequenos poros dilatados de uma adolescência cheia de espinhas e das cantadas tolas e sem nexo. E mais tarde me vi alucinadamente louca, cruzando os nossos signos em um mapa astral inventado e descobrindo coisas em comum e avaliando estatisticamente as possibilidades de nós ficarmos juntos num futuro que poderia ser daquele instante a duas horas (ou menos).
E quando recobrei a realidade vi que em apenas um beijo, ou mais que isso, eu perdi completamente a sanidade mental e me tornei uma adolescente imbecil daquelas que sofrem os maiores dilemas de amor em um romance puramente platônico. Então, decidi pensar: isso é bom? É. Então f*da-se essa p*rra de sociedade que diz que por eu ser uma quase balzaquiana, não posso fazer de meus romances (ainda que fantasiados) um drama teen. De hoje em diante, f*da-se também as promessas. Acabo de crer que nunca as cumpro.


Júlia Siqueira

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Respeito e aceitação

Existe uma linha, ainda que tênue, que separa respeito e aceitação, mas sim ela existe. Talvez seja um critério estabelecido por mim, devido à minha chatice cotidiana, ou algo no cosmos que tenha feito eu bloquear em minha mente que essas duas situações não possam ser simplificadas como uma só.  E não são. Por exemplo, eu respeito que uma mulher apanhe de seu companheiro e aceite continuar com ele por “amor”, mas aceitar que em pleno século XXI, qualquer pessoa jogue o seu amor próprio por conta de algo assim, realmente não aceito.
Respeito que alguns gays vivam sua sexualidade de modo escancarado, mas não aceito que você se torne o estereótipo que a sociedade lhe impõe e que você seja apenas a sua opção sexual.
Respeito que você ganhe o seu pão de cada dia de maneira desonesta, mas aceitar a ponto de compactuar com suas atitudes, isso jamais. 
Respeitar atitudes entra num princípio de poupar-se de discussões e conflitos desnecessários, afinal cada um sabendo de si, realiza aquilo que bem entende. No entanto, cabe a cada indivíduo, dentro de seus valores pessoais, separar o joio do trigo como na parábola bíblica. Misturar água e óleo nunca foi possível, logo achar que porque eu te respeito chego a aceitar sua conduta é algo que ficará apenas no achismo e numa realidade apenas sua. 

domingo, 28 de setembro de 2014

Cama

descansa teu mundo entre os lençóis.
minha mão nos teus cabelos dão-te início ao sono que te vigio 
e aos sonhos em que te aguardo.
nos teus silêncios de alma desnuda costuro intenções.
conto os desejos de atravessar calendários contigo,
sendo teu nome a prece a me guardar nas noites 
e dar-me sempre os dias.
para o lado de cá das cortinas, 
a vida me acontece no teu poema de olhos fechados, 
no intervalo deste nosso descanso, 
antes de recomeçarmos...

Guilherme, do blog a Ilha de um homem só

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Podres poderes

Você que tem horror a política, que espera que saia de alguma catacumba o nosso ilustre Salvador da Pátria, que tem nojo das últimas gestões em todo o país, que odeia Dilma porque ela foi presa por ser uma guerrilheira na ditadura militar, que não confia no discurso volúvel da Marina ou que acha Aécio um governante para as elites, esse texto é pra você. Sim estou falando pra você cidadão ilibado, que cumpre com todas as suas funções sociais e que acha que honra o seu país com o seu discurso vazio de mudança, de mudança estática, de revolução de Facebook e de sofá.
Você, que acha terrível os milhões desviados dos cofres públicos todos os dias, proferindo amplos discursos inflamados contra essa corja que rouba os cidadãos de bens, mas que acha normal receber um troco errado, caso ele seja para mais obviamente. Você que acha uma situação terrível o que aquela estudante fez com o jogador do Grêmio ao ponto de solicitar uma nova legislação contra o racismo, mas não quer que sua filha case com um negro, nem que seu filho 'dê pra viado'. A revolução tem que acontecer, desde que ela não comece em seu santuário particular.
Voltemos às suas convicções políticas. Vejo os seus inúmeros pedidos nas redes sociais de que os militares voltem ao governo, esquecendo-se de sua infância de merda tendo que escolher o que comer, pois a inflação corroía os salários de seus pais. Hoje, posa de rico, com filhos na faculdade com bolsas do governo, casa financiada, além de um belo carro na garagem que comprou quando o IPI reduziu. Hipócrita. Vejo você reclamar ainda que o seu emprego é ruim, que não é valorizado, que os governos nunca valorizaram a sua área de atuação, mas nunca você se valorizou como profissional, uma vez que quase que mensalmente apresenta atestados médicos falsos de doenças que nunca teve, só para matar trabalho.
Tem tantas outras coisas que poderia falar de ti, como por exemplo quando come sua esposa imaginando a colega de serviço, como trai os seus filhos lhe dando presentes banais no lugar de atenção, como adora furar uma fila de banco, como gosta de estacionar em vaga de idoso e deficiente e como és medíocre e mentiroso, mesmo sustentando a fala de grande cidadão honroso que tem ojeriza do errado. Piadista.
Então, mesmo vendo todos esses seus defeitos, eu diria, você, é você, não presta nem para governar sua casa, não imagino que você seja capaz de atribuir algum juízo de valor a esses candidatos que aí estão. Analise-se ou cale-se. Seu melhor voto é o silêncio. 

Vida que segue

Eu te vi correndo hoje no parque, sabia? Corria com aquele olhar distraído e esquecido que tão bem te caracteriza. E sabe o que senti? Nada. Nadinha. Foi mais um transeunte como tantos que passavam em meu caminho matinal, entretanto o que os diferenciava de você, era que a ti eu conhecia bem. Ou pelo menos achei que um dia conheci.
Nossa, lembrei que estava disposta a desprender o tanto de amor que há em mim e te dar, mas você preferiu encontrar nos braços alheios os acalentos meus. Sei, que não ganhou o que queria, que fica de mimimi atualmente rindo da sua desgraça causada por você mesmo, quando  na verdade poderias ganhar vários hahaha, das cócegas que eu em ti fazia enquanto assistia uma besteira qualquer na TV. Talvez hoje não te culpe mais, não me pergunte mais o que tinha de errado em mim. Hoje, não sinto mais nada mesmo, talvez apenas pena, pena de não ter dado certo comigo, um alguém que possivelmente dividiria o céu em várias vezes sem juros pra te dar de presente e ter se frustrado com sei lá quem que nem uma pedra de asfalto lhe prometeu.
Vida que segue...

Júlia Siqueira

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Completude



Quando o telefone toca, minhas mãos suam, como se elas inconscientemente já sentissem o calor que vem ao meu coração quando sei que é você chamando do outro lado da linha.
Quando seus olhos pousam nos meus e eu disfarço com um sorriso de canto de boca, são os meus órgãos dos sentidos mandando sinais para o meu cérebro e coordenando minhas emoções de maneira tão perfeita, no tocante de indicar que você me bagunça de tal forma, que consegue apenas com o olhar me despir por inteiro.
Quando você está perto de mim, tenho a certeza de que somos um só. Dois seres distintos, fazendo morada em um lugar só e em dois ao mesmo tempo. Bem e mal, amor e ódio, calmaria e tempestade, fogo e gasolina, yin e yang, eu e você.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Amor, poeira e cicatriz

Eu era daqueles que defendia com unhas e dentes que o amor deveria se transformar em alguma coisa depois que acabasse, porque ele continuava latente, doendo pelo término, martelando em lembranças o que se queria esquecer. Mas o tempo, ah o tempo, ele tem as respostas que queremos e ansiamos e embora ele pareça rápido por vezes e em outras, lento demais, ele perpassa por nós de maneira única. Como um médico ele limpa as feridas, faz as suturas com precisão, e para tanto, age com morosidade, para que as coisas sejam finalizadas da maneira precisa e a dor não volte mais. O amor se transforma em algo quando acaba, cicatriza para ser apenas lembrança. 

sábado, 6 de setembro de 2014

Sempre fui aquele...

Sempre fui aquele que escreve as cartas de amor mesmo sabendo que nunca as endereçaria a ninguém e que utilizava o escuro da noite e a lanterna do celular para escrevê-las e depois de um tempo as esquecia dentro de livros que nunca leria.
Sempre fui aquele que não sabe distinguir amizade colorida de paixão avassaladora, que não fragmenta o coração em compartimentos com funções específicas e gerenciadores rígidos. Fui aquele que confundiu um beijo com amor, o sexo com paixão e a amizade com devotamento.
Entretanto, sempre fui o que sentia, o que se entregava de corpo e alma sem pensar em qualquer circunstância ou calcular qualquer trajetória oriunda da minha entrega. Sempre fui o que viveu mais e consequentemente o que mais sofreu.

Pensar demais

De todas as lições de vida do mundo a que mais custo a aprender é aquela que dá conta de que as pessoas são reflexo de suas vivências particulares e não se pode exigir de alguém aquilo que ela não tem a oferecer. E isso me faz sofrer. Primeiro, porque tenho essa mania, quase que psicopata, de querer que os outros não façam coisas que abomino. Mas elas fazem.
E esse não querer, perpassa por outro defeito (sim, defeito!) de superproteger quem eu gosto. E isso me leva a desgostar, faz com que as pessoas comecem a morrer em doses homeopáticas dentro de mim. E vejo que sou egoísta, porque não quero pessoas que vivam e sim sejam um reflexo dos meus anseios, que por hora não são atendidos. Mas aí paro para pensar se todas as minhas atitudes são coerentes com o modo de vivência do outro e percebo que refletir e ponderar demais sempre nos leva a enxergar que somos apenas imbecis querendo a todo custo acertar da maneira errada. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

É hora de se desligar.

Há algumas semanas atrás, em uma reunião, eu escrevi alguma coisa na minha agenda sobre o medo que eu tinha de que as novas gerações perdessem o tato pras coisas rotineiras por conta do acúmulo de tecnologias e o uso das mesmas na educação.
 Lembro que existia algum slogan por aí que falava “que a tecnologia aproxima” e outro que dizia que a tecnologia “facilitaria a nossa vida”. Realmente, ela facilita, mas distancia. Distancia-nos de nossas vivências reais, do ouvir a voz de alguém, de sentir a vibração das reações e mudanças de tonalidade da voz, de visualizar a expressões faciais, de perceber o riso frouxo ou a vergonha estampada. Impede-nos de interpretar outras leituras que não sejam aquelas na tela do computador ou no celular. E percebemos que estamos, contraditoriamente, mais rodeados de “amigos” e vazios de presenças.
 Vejo pessoas sendo vendidas em cardápio virtual, em que o prato principal são elas próprias, mudando a apresentação do prato conforme o gosto do freguês, até o ponto de não saberem quem são. Outras, com medo de socializar com um estranho no ônibus porque a conversa no aplicativo é sempre mais interessante ou não consegue sustentar uma conversa com os amigos num barzinho depois de uma semana cansativa, pois tem que checar religiosamente o celular em busca de uma nova foto ou mensagem.
Não me excluo totalmente de tudo que disse acima, apenas tenho mais medo. Temo agora, não pelas gerações que virão depois de nós, mas sim nós mesmos que andamos esquecendo como viver fora do virtual. 

sábado, 23 de agosto de 2014

O pavão

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.


Rubem Braga, Rio, novembro, 1958

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Desamar-me


Desamar-me
silencioso e frágil, ando
a perder-me por entre as folhas do outono
a sentir-me nas gotas inteiras de chuva
a cortar-me engasgado com as palavras
a cegar-me os olhos nas janelas
que me cansam o mundo,
desarmar-me pelos teus sorrisos
desamar-me por envergonhados erros
a sangrar-me nos poentes e despedidas
a sair de casa
e esquecer da primavera;
por morrer de amor.

Guilherme, no blog A ilha de um homem só

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Sobre inteligência e mediocridade

Por vezes é necessário ser inteligente e sair de cena. Sair de cena para não dar uma surra em alguém, para não dizer a verdade quando por diversos momentos se optou permanecer em silêncio apenas por educação ou simplesmente para não perder a razão e a compostura e ser deselegante se igualando à mediocridade alheia, resguardada em palavras rebuscadas. Às vezes é necessário sair de cena, porque é melhor ser um coadjuvante ou figurante sem expressão do que um protagonista imbecil.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Amores plantados

Eu levantava todos os dias e me punha a regar o nosso amor. Regas diárias, podas semanais, conversas quase que intermináveis, adubo, pesticida. Na verdade criei uma redoma, quase que invisível, na tentativa que seres externos não pudessem destruir o que plantei com tanto sacrifício e vi crescer por entre pedras e espinhos de maneira dificultosa, e que mesmo assim se tornou forte ao fincar as raízes de maneira única no solo.
Coloquei o nosso amor num vaso na sala de casa, num lugar contemplativo e pedi que cuidasse dele durante a semana que estive fora. Quando voltei, no entanto, as flores que estavam brotando estavam caídas no chão e as folhas de um amarelado fúnebre. Lembro que se desculpou uma vez, e eu, com um aceno de cabeça, aceitei o que disse, embora com o coração doído com sua displicência tamanha.
Coloquei nosso amor novamente num vaso de contemplação, no lugar onde passa todos os dias. Não esquece que agora quero ajuda para cuidar dele. Não o posso fazer sozinho. Infelizmente se não houver cuidado dos dois, ele morrerá sem grandes chances de reverter o caso. 

sábado, 19 de julho de 2014

Mentiras não! Atuação apenas.

       Ok, ninguém tem uma vida perfeita de capa de Revista Caras. A gente só aprendeu a disfarçar bem a merda que é a vida da gente, de modo que ninguém desconfia que seja o contrário e ainda quer ser como a gente. Na boa, por vezes vejo que merecemos o Oscar de melhor filme de ficção.

Júlia Siqueira

Singular e Plural

Chegará o dia em que seremos passado. O dia em que os nossos nomes serão lembrados em um pretérito perfeito... ele era, ela era, nós éramos. Seremos apenas lembranças de um tempo bom. As pessoas seguirão suas vidas normalmente e poucas se recordarão que um dia nós também já vivemos um dia como caminhantes errantes desse planeta. Isso se chama morrer, correto? Não. Errado. Passaremos apenas para um estágio diferente, teremos uma forma nova de viver. Viveremos nos ensinamentos por vezes tortos que deixamos. Existiremos nas conversas dos amigos, no sorriso que fizemos brotar quando lembrados, seremos mais, seremos plural no lugar de viver no singular.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Pecados

Foi com você que aprendi a pecar assim. Amei-te tanto, que senti preguiça de reservar um pouco do amor que lhe dispensava para mim mesmo, afinal você me reservava os melhores momentos de luxúria e me fazia enxergar uma vaidade que não sabia que existia em mim. A vaidade de ser apenas seu.
E assim fui te amando de um modo doente, beirando a psicopatia, invejando tudo o que estava próximo de ti, irando-me com aqueles que atravessavam o seu caminho, ainda que indo no lado oposto. Comia sua presença, comia os seus desejos, comia a ti com os meus olhos famintos e gulosos, ardoroso dessa paixão que me tirava o sono. Tirava (verbo tirar num pretérito que pra mim não é perfeito).
 Você me levou a cometer tantos pecados, que cheguei ao ponto de passar horas, dias até, pensando em quão demorada seria a confissão de cada um deles. A minúcia nos detalhes e o espanto do padre. Já pensava até nas minhas punições. Um terço inteiro? Não! Uma autoflagelação, talvez. Sim, eu mereço ser surrado por ficar insano de tal maneira e ouvir o seu silêncio gritar que nada do que fazia era bastante. Hoje me restou apenas o último pecado: a mesquinhez de sentimentos. Demorou, mas aprendi que não se deve se doar loucamente a quem não quer.

domingo, 6 de julho de 2014

Maquiagens?

Quando questionamos alguém sobre algo, temos que ter em mente uma coisa, que nem sempre nós ouviremos as coisas que esperamos ouvir. Então é melhor calar-se ou ouvir aquilo que foi solicitado com toda paciência do mundo.
Eu sempre acreditei na franqueza acima de tudo, a hombridade que uma pessoa se faz revelar quando diz que não ama mais e que as lacunas foram preenchidas por outra presença ou a sinceridade de dizer ao melhor amigo que não é implicância e sim apenas um aviso sobre o novo amor ou as suas novas “amizades de infância”, isso mais que qualquer maquiagem torna a pessoa ainda mais bonita, até porque não se pode maquiar a alma, nem a realidade uma vez que nem todo enfeite é definitivo. 

Sobre a maria-fumaça

Não, não é isso! Lembra-se daquele famoso ditado que o coração tem razões que a razão desconhece, pois então, nem sempre esse habilidoso músculo interno tem a eficiência de discernir as coisas. Logo, ele nos direciona para algo que o cérebro diz que não se deve ir, mas ele vai... Como lidar com esses dois seres antagônicos dentro de mim? Vês, como se torna difícil ser humano.
Então percebes o seguinte... Não é não querer, não é não gostar, não é não amar, não é não fugir, não é não tentar... às vezes a gente arrisca colocar lenha nas engrenagens da maria-fumaça na tentativa de que ela ande e nos leve para outro lugar, diferente desse, que seja novo, mas não dá. Não adianta querer viajar pra canto nenhum quando o coração insiste em querer ficar... 

Decepção

De todas as dores que sinto, as físicas e as da alma, nada tem um sangrar mais latente que a da decepção. Ela corta e perfura a carne como abridor de latas enferrujado quando pressionada sobre a carne. Primeiro dói de maneira lancinante e depois vai fazendo sangrar aos poucos, minando sangue por entre as feridas recém-abertas, uma, duas, centenas delas, feitas de maneira minuciosa perpassando pelos chacras e pontos de dor, para que haja mais sofrimento e agonia. Como Prometeu preso no monte tendo uma chaga aberta em que o abutre vem comer, tenho uma chaga maior que alimenta as dores da decepção.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Caso clínico de amor

Quando você conhece alguém tanto, que as frases suas parecem se completar, atente-se a esse fato, pode ser algo diferente, mas também pode ser telepatia.
Quando você conhece todos os defeitos de alguém, até aqueles mais sórdidos de debaixo de travesseiro e mesmo assim se sente compelido a estar com esse alguém, alerte-se, isso caminha para uma cumplicidade sem fim e lá no fim você poderá ser participante de um inquérito policial, ou não.
Quando você consegue sorrir e falar ao mesmo tempo pra alguém, de um jeito diferente, atenção, só pode ser duas coisas: Um, você está trabalhando em um circo, ou dois, está atuando em uma peça teatral de gênero comédia. Pode ser que não seja nada também e você ser apenas um idiota comum.
Quando a vontade de estar ao lado de alguém é maior ou proporcional a sua vontade de comer e dormir, comece a se preocupar. Você pode estar com um caso clínico de amor. E aí todos os sintomas anteriores começarão a fazer mais sentido. 


Taynan Brandão/ Júlia Siqueira

Amor

"O amor só dá de si mesmo, e só recebe de si mesmo. O amor não possui nem quer ser possuído. Porque o amor basta ao amor. E não penseis que podeis guiar o curso do amor; porque o amor, se vos escolher, marcará ele o vosso curso. O amor não tem outro desejo senão consumar-se."

Khalill Gibran in O profeta

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Algo mudou

O olhar já não é mais o mesmo e de repente dormir contigo ao meu lado se torna mais essencial do que qualquer louca aventura sexual. E me pego no meio da noite olhando fixamente e velando o seu sono, tentando entre um ressonar, grunhido ou mexer na cama perscrutar o que vão em seus sonhos. E me sinto atraído por um monte de besteiras que são ditas, e sorrio à toa quando escuto aquela música que você ouve diariamente no som de meu carro. E sei que realmente algo mudou.



segunda-feira, 9 de junho de 2014

Porto seguro

E ele esperou meses para que aquele amor fosse seu, aguardando incessantemente as estações darem lugar umas às outras. Esperou que o inverno acabasse, para que a despedida do frio fizesse com que o amor brotasse em flores no seu coração. Infelizmente não enxergou na beleza das rosas o machucar de alguns de seus espinhos. Mas isso não o abateu. Tirou cada um daqueles pedaços afiados que sangravam a sua carne e prosseguiu, até que o verão fez aquecer a sua alma para lutar mais e mais por aquilo que acreditava. Deixou de lado as coisas por vezes, reapaixonou-se outras tantas, mas esquecer... não, nunca fez. A gente não esquece quem nos faz bem.
O outono chegou e o balançar e cair das folhas das copas das árvores, fez com que caísse na real. Entendeu que não precisa lutar contra a correnteza que te leva para o cais, para seu porto seguro, só precisa fechar os olhos e sentir-se levando o lugar onde o abrir dos braços, dos lábios e do coração seja a segurança de que tanto se procurou e enfim se reencontrou. 

domingo, 25 de maio de 2014

Sim, eu acreditava...

Sim... eu acreditava em nós. Acreditava que sairíamos de um conto de fadas qualquer e transformaríamos isso em realidade. Acreditei que seria possível ver todos os dias o seu sorriso ao levantar e que travaríamos brigas homéricas durante o sono ora disputando o travesseiro ora disputando o cobertor. Achei que seria possível viver cada história das comédias românticas do cinema, sermos personagens daquele livro enorme de Machado que você ostenta na cabeceira e que sei que nunca leu. Mas não aconteceu. E eu continuo aqui, talvez não mais acreditando em nós, mas na certeza de que te ver feliz me faz feliz...



Júlia Siqueira

Coração blindado

Há tempos não sinto aquela sensação insana de perseguir alguém, de querer estar ao lado a todo instante de todas as maneiras possíveis e imagináveis, em não ter aquele asco natural de quando se come muito um doce e não se quer mais vê-lo em sua frente. Esqueci como se come a presença. Regurgitei toda e qualquer vontade de sentir isso novamente. Talvez pelo vazio dos corações alheios e as ausências reais de pessoas presentes, tenho me acostumado melhor com o espaço que sobra na cama e que por vezes é preenchido por mais travesseiros. Sobre o amor... sobre amar... melhor continuar nesse jeito egoísta de estar apenas me amando. 

Direitos e deveres

Onde foi que as pessoas ficaram tão arrogantes? Ter direitos não dá direito a ninguém ser mal-educado, muito pelo contrário, aí é que se deveria ser um poço de cordialidade e fineza. Mas há uma geração cheia de si (e de seus direitos), entretanto que não sabe nada de deveres e obrigações, ou não se faz lembrar-se deles, esquecendo-se que estes resguardam apenas o que um dia pode lhes faltar, já suas obrigações dizem quem se é de verdade. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

01:44:16


      Vem, vem agora... Desejo que seja picado por inseto de outro planeta que lhe dê poderes de teletransporte e vem até mim. Ou peça uma tela holográfica emprestado do Fantástico e se projete aqui na minha frente. Ou melhor, se ponha numa carta ou num grande pacote e venha por correio ao meu endereço. Voe até mim... venha até... estou aqui, esperando a sua loucura de estar aqui ao meu lado, que eu não serei louco de te deixar voltar...

domingo, 4 de maio de 2014

O banquete dos esquecidos

         
          "Vai chegar um dia em que todos vamos estar mortos. Todos nós. Vai chegar um dia em que não vai sobrar nenhum ser humano sequer para lembrar que alguém já existiu ou que nossa espécie fez qualquer coisa nesse mundo. Não vai sobrar ninguém para se lembrar de Aristóteles ou de Cleópatra, quanto mais de você. Tudo que fizemos, construímos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido. Tudo isso aqui vai ter sido inútil. Pode ser que chegue logo e pode ser que demore milhões de anos, mas, mesmo que o mundo sobreviva a uma explosão do sol, não vamos viver para sempre. Houve um tempo antes do surgimento da consciência nos organismos vivos, e vai haver outro depois. E se a inevitabilidade do esquecimento humano preocupa você, sugiro que deixe esse assunto pra lá. Deus sabe que é isso o que todo mundo faz."

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A viagem de ida...

Juntei todos os meus cacos de sonhos e pus na mala, mala não, valise, afinal os sonhos que sobraram eram tão pequeninos, miúdos e alguns estavam esmigalhados que cabiam até numa sacola de supermercado. Peguei uma passagem só de ida para um lugar distante, aquele em que sempre pensei em ir desde quando vi naquelas revistas de viagens que ficam em consultórios psiquiátricos. Esqueci-me de dizer, tenho síndrome de Asperger com tratamento clínico em curso, diagnosticado precocemente quando eu ainda tinha 10 anos e aconselhava insistentemente a minha professora de ciências que aquelas batas indianas ficavam horríveis em pessoas acima do peso aliado a minha necessidade de punir com tapas, pontapés e beliscões os meus nobres colegas de classe por cada erro gramatical por eles cometido. Mas isso é só um pedaço de gelo no iceberg que sou... Isso mesmo, também sou fria e talvez seja por isso que tenha escolhido partir para um lugar que tem a mesma temperatura que eu.
Cheguei ali como na música de Caetano, sem lenço e sem documentos, só com a vontade de viver coisas diferentes e que talvez pudesse me fazer mais feliz. E em meios aos parques e ruas daquela suntuosa cidade, avisto você, olhos atentos na tela de seu Iphone e dedos ágeis teclando alguma coisa. Parei e pedi uma informação qualquer sobre o lugar e sua cordialidade e simpatia me fez acreditar na raça humana. Longe daquela história démodée de amor à primeira vista, digamos que o que senti no momento fosse apenas encantamento que posteriormente com o passar dos dias e a intensidade do contato me fizeram acreditar em algo além. No entanto, policiei-me quanto a isso. Estamos (nós, a humanidade) passando por um momento de carência coletiva e, dizia a mim mesma, a cada mensagem sua me convidando para um jantar ou cada bilhete singelo de bom dia em que recebia em meu hotel, que era só amizade ou coisa parecida.
Passados dias, meses eu acho, desde minha chegada, você aproximou-se de mim e o meu coração já saltitava em meu peito. Como isso? - pensava. E nesse curto instante entre o pensamento e o andar dos ponteiros você me surpreende com o toque inesperado de seus lábios com os meus. Um beijo, daqueles de cinema francês ardoroso em paixão que faria Klimt chorar por não ter nos tido como modelos do seu mais famoso quadro.
Abandonei os remédios, você era meu tratamento, corrigia seu português ruim entre beijos e sorrisos e fui me percebendo mais humana, mais real. Perguntava-me até quando essa paixão duraria, pois sei que tudo nessa vida é acelerado e nada infelizmente é eterno. Joguei tudo para o ar, pensar naquilo cansava, entretanto viver aquilo que me trazia novamente à vida e me fazia ter uma certeza, ainda que momentânea, de que algumas loucuras são necessárias. Acabei mudando-me literalmente e aprendendo uma nova matemática, em trago os meus sonhos, grandes agora por sinal, para somar com os seus todos os dias.


Júlia Siqueira

"E se o tempo levar você, e um dia eu te olhar e não te reconhecer? E se o romance se desconstruir, perder o sentido e me esquecer por ai? Mas nós somos um quadro de Klimt, o beijo para sempre, fagulhando em cores, resistindo a tudo seremos dois velhos felizes de mãos dados numa tarde de sol... pra sempre"