domingo, 24 de novembro de 2013

Pedido

Não há pedido mais simples e paradoxalmente mais difícil em por em prática que o feito por Jesus: amem-se uns aos outros. Simples, à medida que soubéssemos entender o outro, pensando em como nós agiríamos caso fosse conosco ou levando em consideração o dito popular “não faça com os outros, o que não se quer pra si”, e, difícil porque infelizmente ainda não chegamos a esse grau de elevação moral.

Você não quer

O que queria agora mesmo era ter seu corpo pesando sobre o meu, respiração ofegante, coração disparado, beijos descontrolados, prazeres latentes, arrepio com o toque. Queria te encher de carinho, te cobrir de amor e depois lhe despir de palavras bonitas e novamente cobrir com sentimentos lindos e profundos. Queria: verbo querer conjugado no pretérito. Eu queria, no entanto, você não quer.

sábado, 16 de novembro de 2013

Erro



Errei uma, duas, milhares de vezes, que nem o maior soroban* conseguiria calcular com precisão a quantidade. Errei quando deixei que você fosse inquilino da minha bagunçada, mas querida casa: meu coração. Errei quando permiti que seu sorriso inebriasse a mente, povoasse meus sonhos e me fizesse de tola. Errei e constato: os erros poderiam às vezes não beijar tão bem ou não marcar tanto assim.

Júlia Siqueira


*Soroban é um instrumento de cálculo, mais conhecido por seu uso no Japão e na China, que é formado por uma moldura com bastões ou arames.

Uma história sobre amizade



Em minha casa, há um tempo, apareceu um filhote de porco-espinho. A minha gatinha criou certa amizade com ele deste então, não se separando dele um só instante, de modo que onde um estava o outro também ali se encontrava. E de tanto grude, chegava a ser era engraçado vê-los, dois seres diferentes ligados por uma união tão bonita. Mas eis que um dia quando já crescido, o porco-espinho, como lhe é de natureza, arremessou um de seus espinhos e machucou a gatinha. Ela ficou assustada, recolheu-se num canto, não o procurava mais, já não brincavam mais juntos. O espinho ela não conseguira tirar, nem ao menos me deixava ajudar a lhe livrar daquele incômodo.
Passaram-se os dias e de repente no canto da sala, vejo os dois novamente juntos, o porco-espinho na tentativa de tirar o espinho que deixara outrora na amiga enquanto ela fingia dormir. E desde então não nos separaram mais.
Assim somos nós. Às vezes é preciso retirar os espinhos e seguir em frente. Recuar é bom, mas não tira ou faz minimizar dor alguma, talvez só a faça aumentar. Sofrer não. Perdoar sempre.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

E o que acontece depois do fim?



E perguntaram a um grande sábio: - Mestre, mas e se a vida eterna não existir? E se não haver nada depois da morte? Vivemos nossas vidas esperando o nada? E ele pacientemente respondeu: - Se essa esperança te impulsionou a ter certeza de vitórias grandiosas em sua existência, se te ajudou a passar confiante pelas dificuldades, se te ajudou a ver seu filho brincar feliz dizendo que o ama e te faz amado perto das pessoas que te rodeia, então você não esperou nada, você viveu sua vida esperando o TUDO e fez dessa sua trajetória o tudo. Sinta-se feliz por isso.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Um pixel, uma imagem, você



Você é um pixel, uma união de cores perfeitas no papel de parede do meu computador, um número de celular na minha agenda de telefones, mas também é o amor que quero pra minha vida inteira, uma vida planejada com quatro crianças correndo com os nossos dois labradores pela nossa casa adentro, sujando tudo de lama, derrubando os móveis que compramos na nossa última viagem antes do nosso casamento, que foi na praia, ao som das ondas do mar e o barulho quase que discreto das nossas lágrimas de felicidade e os risos de nossos amigos de êxtase e excitação.
Mas você é um pixel, uma realidade inventada, uma foto apenas, uma união de palavras das quais não tenho certeza se realmente são reais. Não sei as intenções, não sei as feições, não conheço o cheiro, o timbre vocal, os trejeitos e gestos. Não sei. Apenas tenho a certeza do que me acompanha quando sua realidade longe e próxima, invade o meu coração e me torna capaz de sonhar com nós dois.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Lembrança portátil



Um dia você deixou escapar que sentia vergonha por nunca ter lido um clássico. Eu fiquei vermelho, confesso, mas admiti que não dava tanta importância aos livros tão importantes. Cá entre nós, achávamos chato qualquer livro com mais de 256 páginas e 12 personagens, lembra?  Guerra e Paz ainda espera nossos olhos. Se depender da nossa vontade, Moscou morrerá de frio. E, com todo respeito, que se foda Napoleão. Dom Quixote ainda tenta chamar a nossa atenção com aqueles moinhos gigantes. Sancho tem um nome fofo. Meu cachorro teria esse nome. Se fosse um buldogue, claro! E, pra mim, Cervantes será sempre um restaurante em Copacabana não um livro de bacana!
E você ri. E eu também! E a gente se beija. Ah, e eu não me esqueço daquele silêncio homérico quando confessei que não li Ilíada e não entendi porra nenhuma da Odisseia. Prefiro mil vezes o Stanley mandando gregos e troianos fantasiados de macaco pro espaço. Desculpa os palavrões. Se eu me envergonho? Um pouco, confesso. Mas eu li o poema que você escreveu pra mim quando nem sonhávamos em sonhar em estar juntos um dia – se é que já estivemos juntos um dia. E aqueles versos bobos talvez sejam a coisa mais linda que li até hoje. Neruda que me perdoe. Quintana que me desculpe. Drummond que não me julgue. Aquele seu poema é o único clássico que tem espaço cativo e afetivo na minha estante: entre a Liberdade, de Franzen, e o Eu Hei-de Amar uma Pedra, de Lobo Antunes. E é lido todos os dias desde o dia que não nos vimos mais. Quando leio: “Amado, o mundo é tão estúpido que as pessoas precisam amar.” Eu tremo. Quando releio “Amado, o mundo é tão estúpido que eu não posso te amar“. Eu choro. E essa fala ainda reverbera nitidamente feito berro silencioso nos meus tímpanos de menino. Eu ouço a sua voz declamar cada verso, como se fosse rasgar minha memória. E rasga.
Um dia você deixou escapar que sentia vergonha por nunca ter lido um clássico. Eu tenho vergonha dos que nunca leram um poema seu.

Antônio