quarta-feira, 18 de abril de 2018

Queremos ser eternidade


Quando nascemos inconscientemente já intuíamos: - Um dia a menos. É como se entrássemos em escala decrescente e os anos a mais que tanto comemoramos com alegria, nada mais é que uma contagem regressiva para nos despedirmos desse mundo. Para que nascemos então senão para morrermos a seguir? E de que vale a nossa existência se um dia passaremos a ser apenas uma mera lembrança na vida de alguém que gostava de nós (ou não)?
Não fomos preparados para ser apenas lembrança, um rosto no álbum de fotografias ou um nome numa certidão esquecida. Desde a mais tenra idade fomos projetados para passar as etapas e concluí-las com louvor. A infância e seus joelhos machucados das constantes quedas, a adolescência e sua intensidade, a vida adulta e seus altos e baixos. Era como se a cada passada de fase com sucesso, ganharíamos bônus, moedinhas ou coisas parecidas com qualquer joguinho bobo de celular. E constantemente queremos passar de fase, queremos conquistar os desafios que se impõe e dizer: - Eu venci! 
Aí em um dia inesperado deixamos de ser. O vazio começa a existir e o nada. Para nós, religiosos, nossa alma transcende e somos acolhidos em outro lugar, mas que lugar seria esse? Não sabemos. Então, passamos a não querer conviver com pessoas desconhecidas, não queremos “outra vida”, gostaríamos daquela que construímos com o passar das fases, mas vemos a fase final chegou e fomos derrotados por ela. 
Fim. 
Não estamos preparados para ele. 
Somos instantes, mas queremos ser eternidade.

domingo, 8 de abril de 2018

Jamais aprisionarão nossos sonhos


Nós tivemos antena parabólica em 2000 com muito custo. Era difícil depender dos vizinhos para ver os seus programas favoritos e parcelamos uma a perder de vista depois de insistir para meus avós que aquilo era quase necessário. 
Minha avó, quando meu avô faleceu, rodava mercados economizando centavos para dar conta de colocar comida dentro de casa. Sim, nós íamos de mercado em mercado sempre buscando os produtos mais baratos. Minha mãe ajudava ao seu modo. Vi muitas vezes ela tirando casacos que eram pura naftalina do armário e os colocando no sol para depois usá-los para que eu tivesse roupas novas durante o inverno. Aliás, roupas e calçados só em duas épocas, junho e janeiro, apenas. Viajar não era realidade, exceto quando tinha que acompanhar alguém doente para fazer exames em Ilhéus e Itabuna.
Sempre estudei em escola pública e isso me preparou para a vida. A realidade das pessoas que nos rodeia é, por vezes, mais difícil que a nossa e isso me dava resiliência para não reclamar da sorte. Minha mãe em 2006 teve a oportunidade de estudar por um programa de formação de professores na UESC. Dividia apartamento com outras pessoas para que os custos fossem mínimos e pudesse por fim ter um diploma de graduação. Eu passei no vestibular em 2007 e cursei história na mesma universidade que minha mãe. Peguei muita carona, andei muito de ônibus lotado, passei horas na biblioteca, pagava acesso à internet para fazer trabalhos.
Em 2009 minha avó ficou doente e o que sustentou duas pessoas de uma mesma família na faculdade, uma idosa doente e uma criança de seis anos em uma mesma casa foi termos bons empregos na época, fruto do nosso suor. Minha avó deixou-nos de herança a casa, construída com troca de doces por tijolos, numa época ainda mais difícil. E continuamos a lutar muito para termos o que temos hoje.
Pessoas de “berço” não entendem e nem nunca nos entenderão. Pessoas que nunca tiveram que reutilizar roupas e calçados de outras pessoas não sabem o valor que damos por coisas simples. Pessoas que sempre viajaram não sabe a alegria que é tirar férias fora de casa. Pessoas que nunca tiveram que lutar para construir o que tem hoje porque herdaram de alguém, não sabe o valor de cada centavo que se ganha. 
Pessoas simples sempre lutarão e nunca se acovardarão. Pessoas simples jamais deixarão aprisionar os seus sonhos. 


sexta-feira, 6 de abril de 2018

Humanos? Talvez fomos um dia.


Vivemos um período perigoso em nossa história. Passamos a nutrir um ódio pelo outro simplesmente por ele pensar diferente de nós. Não dialogamos e não damos as mãos para resolvermos juntos situações e problemas. A culpa é do outro e este outro nos culpa de volta.
A empatia ficou no lixo. Sentimentos e sensações despejadas privada adentro. Guerreamos. A dor alheia tem que ser a primeira a ser sentida, o primeiro golpe e a última palavra têm que ser minha. Eu gozo primeiro. Eu sei mais que você. O mundo girando ao meu redor. Eu, eu, eu. Eu venço, mas me perco.
Humanos? Talvez fomos um dia.

quinta-feira, 15 de março de 2018

A gente não pode ser só tristeza


Nós ficamos indignados todos os dias. O noticiário só traz miséria, tristeza, morte, violência. Sim, temos vontade de chorar, mas a gente engole o choro e esquece por alguns instantes, porque viver precisa também ser um pouco prazeroso, por isso sambamos, cantamos, brincamos, nos divertimos, ainda que em corações vez ou outra pese uma agonia, uma angústia.
Esquecemos por instantes. Nós nos fazemos deslembrar de quão cruel pode ser a vida, colocamos máscaras em nossos rostos, parecemos não nos importar com o que vemos, lemos, sentimos, num lampejo de esperança de que ao levantarmos de nossas camas no dia seguinte tudo tenha melhorado de alguma forma. E essa esperança é o que nos alimenta a seguir em frente nesse mundo tão complicado.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Ausências?


Falando dia desses com uma amiga psicóloga, ela disse que quem escreve se expressa muitas vezes melhor do que quem faz análise. Talvez seja a escrita uma forma de análise na qual não pagamos ao terapeuta no final exigindo a notinha para que abatamos no imposto de renda. A escrita fala tanto de nós que talvez nem saibamos mensurar quanto.
Hoje minha análise é sobre ausências e como ela nos afeta como um soco inesperado no estômago. A gente não nasceu, definitivamente para sermos sós. Não nos ensinaram em nenhum lugar ou nos prepararam para que estivéssemos sozinhos em algum momento. Já adianto que não falarei de solidão e ser solitário e aquele velho discurso de que um não quer dizer o mesmo que o outro, coisa que já estamos carecas de saber.
Falo de estar só, sem referências para o mundo, em um lugar em que as pessoas se preocupam tanto com seus salários e seus ganhos que se matam de trabalhar a ponto de não estabelecerem com outro qualquer tipo de relação por mais simples que seja. Pessoas que marcam de sair para tomar um chopp e não se encontram afinal, pois estão encobertas em uma névoa de mistério e/ou acham que sua saída precisa ser um acontecimento digno de parecer em sites do segmento artístico. Vidas pautadas em uma rotina fechada e argumentos vazios, além de desculpas esfarrapadas. Não quero aprender isso. Me nego a viver desse jeito, mas a influência é tão grande que por vezes me pego fazendo igual. Seria vírus pós-moderno que nos controla a tal ponto de não nos permitir mais viver? Ou estou sendo muito apreciador de teorias de conspiração e ficção científica?
Perguntas a parte, sinto falta de pessoas que surpreendam, que tenham tempo de contemplar a vida, agradecer a existência e saber jogar conversa fora quando necessário. A rir de si e suas desgraças e entender que elas são uma ótima oportunidade de melhorarmos, a viver sem a pressa de ter e acumular coisas e quinquilharias dentro dos armários de casa e dentro de si, coisas que nunca usarão e ocupam um espaço imenso.
Quando a gente escreve põe coisas que nem imaginamos para fora, sim, é verdade. Talvez seja seu corpo dizendo que é necessário esvaziar-se e não sentir tamanha ausência daquilo que nunca foi presente. É dar a oportunidade jogando entulhos, a gente possa se encher de nós e entender que ainda que muitas vezes esse vazio é a falta de entendimento de que não precisamos muito do outro para fazermos coisas que nos façam feliz. Que um dia aprendamos, quem sabe...

Me chame do que quiser


Me chame pelo seu nome é um livro foda. Não assisti ao filme com medo de que as palavras ali contidas sejam destruídas pela atmosfera que nem sempre o cinema consegue recriar. Talvez o assista um dia, talvez. Mas o que tem de tão diferente em um livro que conta a história de amor de um adolescente de 17 anos por um professor mais velho que vem passar as férias de verão em sua casa em algum lugar da Itália? Tudo. O protagonismo LGBTQ numa época em que ainda se matam homossexuais no mundo inteiro apenas pelo simples fato de serem quem são, já é por si só um soco no estômago. E tem o erotismo sutil em uma relação de amor que poderia ser construída por qualquer um. Não é apenas um livro sobre gênero ou sexualidade.
É um livro sobre seres que se amam e têm que aceitar que mesmo que isso seja bom, vivem num mundo em que a hostilidade fala mais alto por vezes e a gente é obrigado a usar máscaras que se moldam de tal maneira à nossa personalidade que não sabemos mais o que é máscara e o que somos nós. O livro nos desnuda, nos faz refletir sobre o que queremos ser e o que realmente somos. Faz-nos descobrirmos.
Chorei copiosamente quando o finalizei. Por praticamente dez ou vinte minutos, não sei, fiquei processando cada palavra lida e aquela história de amor atemporal. Aprendemos que os amores vão e vem, mas indubitavelmente tem aquele que marca a nossa existência e tatua a nossa alma, seja para o bem ou para o mal. As histórias de amor são aprendizados e aprendi com o Élio e o Oliver que elas precisam ser vividas, sem culpas, sem medo, sem neuras, afinal esse breve instante que chamamos de vida, não pode ser apenas um aglomerado de arrependimentos, mas uma coletânea de experiências.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Poesia sua


Quando leio Augusto dos Anjos, nunca sei se ele é parnasiano ou simbolista, talvez realista ou profeta, ou muito dos dois ou nada disso. Não concluo, apenas permito dizer que ele poderia me ter conhecido em botequim por aí, caída, vencida, jogada aos vermes, hipocondríaca, escarrada (não beijada). Sou uma poesia de lixo. Sou uma quimera. Sou aquilo que nem sei. Sou? Talvez. Sou incertezas, um vento que se agitou em algum canto distante do globo, a incerteza de muitos e a verdade de poucos. Hoje me sinto vencida. Hoje nem me sinto. Desculpe a ousadia grandioso poeta, acho que sou uma poesia sua.

Júlia Siqueira